Visão geral em 30 segundos: Das eleições «vitrine democrática» dos anos 1950 — onde só se elegiam legisladores, não o presidente — até 1996, quando 14,31 milhões de pessoas votaram na primeira eleição presidencial direta da sociedade chinesa.1 Taiwan levou menos de meio século, atravessou três alternâncias partidárias (2000, 2008, 2016), e converteu as eleições de adorno político da era da lei marcial no ritual nacional que se repete a cada quatro anos. Das chamas do incidente de Zhongli ao tripé partidário de 2024, a democracia desta ilha não foi desenhada: foi conquistada, uma cédula de cada vez.
19 de novembro de 1977, seção 213 de Zhongli, condado de Taoyuan. Um fiscal de mesa foi visto sujando cédulas com o polegar sujo de tinta. A notícia espalhou-se e mais de dez mil cidadãos cercaram a delegacia de polícia de Zhongli. À noite, as chamas consumiram o prédio. Duas mortes: o estudante da Universidade Central Jiang Wen-kuo (江文國), atingido na cabeça, e Zhang Zhi-ping (張治平), 19 anos, caído na rua2.
Aquele incêndio não destruiu apenas um edifício. Emitiu um sinal: o eleitorado taiwanês não toleraria mais cédulas roubadas. Naquela eleição, o candidato tangwai (fora do partido) Xu Xinliang (許信良) venceu o candidato do KMT Ou Xianyu (歐憲瑜) por 230 mil votos3. O incidente de Zhongli tornou-se a primeira fogueira do movimento democrático de Taiwan. A cédula pode ser furtada, mas a vontade popular não.
A evolução de uma cédula
Vitrine democrática (anos 1950)
Nos anos 1950, o Governo Nacionalista precisava provar aos EUA que era a «China Livre». As eleições locais eram essa «vitrine»: mostravam a forma democrática aos americanos, mas o KMT controlava o conteúdo com mão de ferro. A eleição para a Assembleia Provincial de Taiwan de 1950 foi a primeira eleição local do pós-guerra, mas as regras eram claras: podiam eleger legisladores, não o governador; podiam criticar políticas, não questionar o líder4.
Mesmo sob controle estrito, a eleição abriu fendas. Em 1951, Wu San-lian (吳三連) elegeu-se prefeito de Taipé como independente, com 65,6% dos votos, tornando-se o primeiro prefeito eleito diretamente da República da China5. O KMT apoiou-o nos bastidores, mas o simples fato de um prefeito «não KMT» assumir a prefeitura de Taipé mostrou a outros políticos locais que era possível.
Guerra nas cédulas (anos 1970)
Nos anos 1970, Taiwan sofreu choques sucessivos: saída da ONU (1971) e rompimento diplomático com os EUA (1979). A legitimidade do KMT começou a tremer. A classe média expandiu-se e vozes tangwai emergiram nas urnas.
Em 1975, o político de Yilan Guo Yu-xin (郭雨新), aos 67 anos, candidatou-se a legislador. Na apuração, apenas no condado de Yilan apareceram quase 100 mil votos nulos — várias vezes a proporção normal. Dias depois, numa obra viária, encontrou-se um saco de cédulas válidas descartadas, todas marcadas para Guo Yu-xin. Os advogados que moveram a ação eleitoral por ele chamavam-se Yao Jia-wen (姚嘉文) e Lin Yi-xiong (林義雄): quatro anos depois, ambos seriam réus no caso Formosa6.
As cédulas de Guo Yu-xin foram roubadas. Mas aquele processo ensinou a toda uma geração tangwai: a lei pode ser arma.
Do subterrâneo ao Grand Hotel (anos 1980)
O caso Formosa (1979) dizimou o movimento tangwai, mas gerou a geração seguinte. Os advogados de defesa dos líderes presos — Chen Shui-bian (陳水扁), Xie Chang-ting (謝長廷), Su Zhen-chang (蘇貞昌) — tornaram-se os novos rostos da democracia. As familiares dos presos — Lu Xiu-lian (呂秀蓮), Chen Ju (陳菊), Zhou Qing-yu (周清玉) — entraram na política, tornando-se a força feminina da geração Formosa.
28 de setembro de 1986, 132 figuras tangwai reuniram-se no salão Dunmu, segundo andar do Grand Hotel de Taipé, e anunciaram a fundação do Partido Democrático Progressista (PDP). Isso violava a «Lei de Organizações Populares do Período de Mobilização para Supressão da Rebelião»: fundar partido era crime. A notícia chegou a Chiang Ching-kuo (蔣經國); assessores recomendaram repressão. Chiang disse uma frase: «A época muda, a maré muda, o ambiente também muda.»7
Dez dias depois, Chiang Ching-kuo disse à editora do Washington Post, Katharine Graham, que Taiwan levantaria a lei marcial e abriria a política. A fundação do PDP não foi reprimida: o KMT escolheu tolerar.
Dois meses depois, na eleição legislativa, o PDP obteve 22,2% dos votos e elegeu 12 cadeiras. Um partido nascido sessenta dias antes já tinha assento firme8.
Eleger o próprio presidente
Renovação total do Parlamento (1991-1992)
Em 1991, o «Parlamento de dez mil anos» mantido por quarenta e três anos finalmente renovou-se totalmente. Aqueles legisladores e delegados da Assembleia Nacional eleitos em 1947 no continente, nunca reeleitos, saíram de cena. Em 1992, o Yuan Legislativo renovou-se por completo: pela primeira vez, os taiwaneses elegeram verdadeiramente o seu próprio parlamento9.
1996: mísseis e cédulas
23 de março de 1996, 14,31 milhões de eleitores entraram nas seções e votaram na primeira eleição presidencial direta de Taiwan — e da sociedade chinesa.
A China continental disparou mísseis nas águas ao largo de Taiwan na véspera, tentando intimidar eleitores. O efeito foi inverso: a participação saltou para 76%. Lee Teng-hui (李登輝) obteve 5,81 milhões de votos (54%), Peng Ming-min (彭明敏) 2,27 milhões (21,1%), Lin Yang-kang (林洋港) 1,60 milhão (14,9%), Chen Li-an (陳履安) 1,07 milhão (10%)1. Os mísseis não assustaram ninguém.
2000: tripé e primeira alternância
A eleição presidencial de 2000 foi a noite mais dramática da história política de Taiwan. O KMT rachou: o ex-governador provincial James Soong (宋楚瑜) saiu do partido e concorreu, dividindo o voto pan-azul com o candidato oficial do KMT, Lien Chan (連戰).
Resultado: Chen Shui-bian 4,97 milhões (39,3%), James Soong 4,66 milhões (36,8%), Lien Chan 2,92 milhões (23,1%). O PDP venceu o poder com menos de 40% dos votos10.
O essencial não foi quem ganhou, mas como os perdedores reagiram. O KMT perdeu 55 anos de poder sem mobilizar tropas, sem golpe. Lien Chan e James Soong reconheceram a derrota. A transferência de poder foi pacífica. Taiwan provou pela primeira vez que a sua democracia não era apenas teoria.
2004: dois projéteis
19 de março de 2004, véspera da eleição. Chen Shui-bian e Lu Xiu-lian faziam comício em Tainan quando foram baleados. Um projétil roçou o abdômen de Chen, outro atingiu a joelheira de Lu. Ambos tiveram alta no mesmo dia11.
No dia seguinte, Chen venceu Lien Chan por menos de 30 mil votos. Apoiadores pan-azuis concentraram-se frente ao Palácio Presidencial protestando, acusando encenação. O principal suspeito, Chen Yi-xiong (陳義雄), foi encontrado afogado no porto de Anping, Tainan, dez dias depois. A verdade segue em disputa até hoje.
Foi o momento em que a democracia taiwanesa esteve mais perto da ruptura. Quase metade dos eleitores questionou o resultado; protestos de rua duraram semanas. Mas, no fim, o procedimento legal cumpriu seu papel: recontagem, ações judiciais, sentenças. O sistema segurou.
A fratura do mapa partidário
A história partidária de Taiwan não é simples «bipartidarismo». É uma história contínua de cisões, recomposições, mortes e nascimentos.
O conflito interno do KMT explodiu nos anos 1990. Em 1993, insatisfeitos com a «nativização» de Lee Teng-hui, a Nova Aliança do KMT saiu e fundou o Novo Partido. Em 2000, após a derrota, James Soong criou o Partido da Primeira-Mão (PFP). Em 2001, expulso do KMT, Lee Teng-hui apoiou a criação da União de Solidariedade de Taiwan (TSU)12.
No lado do PDP também houve rachas. Em 2015, a energia do Movimento Girassol converteu-se no Poder da Era, defendendo uma linha de «Taiwan como sujeito» mais radical que a do PDP. Em 2019, o prefeito de Taipé Ko Wen-je (柯文哲) fundou o Partido Popular de Taiwan (TPP), tentando uma «terceira via além do azul e verde»13.
Chegado 2024, o mapa partidário de Taiwan estabilizou-se em três grandes forças: PDP (verde), KMT (azul), TPP (branco). Mas a história avisa: este mapa pode fraturar-se de novo a qualquer momento.
Como os taiwaneses elegem
Comícios: o carnaval da democracia
A paisagem mais singular das eleições taiwanesas são os comícios noturnos. Candidatos alugam praças, montam palcos, artistas aquecem a plateia, a multidão agita bandeiras e grita «Dong-suan! Dong-suan!» (fonética taiwanesa para «eleito!»).
O comício não é só mobilização política; é festa comunitária. Barracas alinham-se nas ruas, crianças nos ombros dos pais, idosos levam banquetas para guardar lugar. A eleição é das poucas atividades onde os taiwaneses satisfazem ao mesmo tempo participação política, necessidade social e consumo de entretenimento.
Voto no domicílio de origem: a migração anual
Taiwan ainda não tem voto em trânsito. O eleitor deve votar presencialmente no domicílio de registro; não há voto postal nem antecipado14.
Isso significa que, a cada eleição, Taiwan vive uma migração massiva de «volta à terra natal». Quem trabalha em Taipé mas vota em Kaohsiung, quem trabalha em Hsinchu mas vota em Yunlin, disputa passagens de trem. O trem-bala adiciona composições, empresas de ônibus reforçam frotas. Nas estações do trem-bala no dia da eleição, a lotação supera a do Ano Novo Lunar.
Oponentes do voto em trânsito temem: se mais de um milhão de taiwaneses que trabalham na China puderem votar à distância, podem sofrer influência de Pequim. Defensores argumentam que impedir o voto no local de residência é barreira disfarçada. O impasse persiste sem consenso.
A noite da apuração
A apuração de Taiwan é um espetáculo transmitido ao vivo para todo o país. Às 16h, as seções fecham; mesários abrem as urnas na hora e cantam cada cédula. Emissoras instalam câmeras em cada seção, transmitindo em tempo real.
Não há país com apuração mais transparente. Você pode ficar do lado de fora da seção e ver cada cédula exibida, lida, contada. Do fechamento das urnas à definição geral do resultado, costumam bastar três ou quatro horas.
Momentos-chave recentes
2018: a onda Han e o tsunami de referendos
A eleição local de 2018 foi um sismo político. Han Kuo-yu (韓國瑜), figura nova no KMT, caiu de paraquedas em Kaohsiung e venceu Chen Chi-mai (陳其邁) do PDP com 890 mil votos, pondo fim a 20 anos de governo verde na cidade15. Em todo Taiwan, o KMT levou 15 prefeituras de condados/cidades, o PDP ficou com 6. Tsai Ing-wen (蔡英文) renunciou à presidência do partido.
Os referendos nacionais simultâneos foram ainda mais impactantes. Dez temas — energia, segurança alimentar, casamento homoafetivo, educação de gênero — colocaram o eleitor frente a dez cédulas de referendo; filas gigantes nas seções. O referendo «casamento limitado a um homem e uma mulher» passou, criando um choque frontal entre vontade popular e via legislativa no caminho que faria de Taiwan o primeiro país da Ásia a legalizar o casamento homoafetivo16.
2020: 8,17 milhões
Dois anos depois, a eleição presidencial de 2020 inverteu completamente o vento. O movimento anti-extradição de Hong Kong tornou concreto o medo taiwanês de «um país, dois sistemas». Tsai Ing-wen partiu da derrota de 2018 para uma virada histórica, obtendo 8.170.186 votos — a maior votação nominal de qualquer candidato na história eleitoral de Taiwan. Han Kuo-yu obteve 5,52 milhões; participação de 74,9%17.
O número 817 virou símbolo político: para apoiadores, emblema da vontade democrática; para críticos, prova da polarização extrema.
2024: o tripé revisitado
A eleição presidencial de 2024 reeditou o tripé de 2000. Lai Ching-te (賴清德, PDP) venceu com 5,58 milhões de votos (40%), Hou You-yi (侯友宜, KMT) 4,67 milhões (33,5%), Ko Wen-je (TPP) 3,69 milhões (26,5%)18.
Foi a primeira vez na história da eleição direta que o vencedor ficou abaixo de 50%, e a primeira vez que um partido vence três presidenciais consecutivas. Simultaneamente, o PDP perdeu a maioria no Yuan Legislativo — poder executivo e legislativo em campos opostos: Taiwan entrou na nova era do «governo dividido».
Uma democracia ainda em evolução
Em 2005, a Assembleia Nacional votou a própria extinção — o órgão eleito em 1947 em Nanquim cumpriu sua última tarefa em Taiwan e entrou para a história. Na mesma emenda, o Yuan Legislativo encolheu de 225 para 113 cadeiras, mandato de três para quatro anos, sistema alterado para distrito único com dois votos. Futuras emendas constitucionais exigiriam referendo popular, com barreiras quase intransponíveis19.
O sistema eleitoral de Taiwan segue evoluindo. Em 2022, proposta de referendo baixou a idade de voto de 20 para 18 anos; por ser emenda constitucional, exigia mais de 9,61 milhões de aprovações — só 5,64 milhões votaram sim, falhou. Política de dinheiro, desinformação, reforma do sistema de voto: cada um permanece tarefa inacabada.
Das chamas do incidente de Zhongli em 1977 aos 14 milhões que fizeram fila silenciosa para votar em 2024 — Taiwan usou menos de meio século para transformar a eleição de um direito que exigia incêndio para ser defendido num hábito que funciona sozinho, sem que ninguém precise lembrar.
Nem toda eleição é perfeita. Mas, em cada uma, quem perdeu saiu, quem ganhou subiu. Neste planeta, isso não é tão óbvio quanto parece.
O mapa político pós-2024
O resultado de janeiro de 2024 não decidiu apenas quem ocupa a presidência; redesenhou o mapa de poder dos próximos quatro anos. Lai Ching-te e Hsiao Bi-khim (蕭美琴) entraram no Palácio Presidencial com 40,1% dos votos, mas o PDP obteve apenas 51 cadeiras no Yuan Legislativo, contra 52 do KMT e 8 do TPP. Nenhum partido tem maioria. Taiwan estreou, na sua história constitucional, um genuíno «minoria no governo, maioria na oposição» — o partido no poder perdeu simultaneamente a maioria legislativa e a presidência da casa20.
Minoria no governo, maioria na oposição: guerra-relâmpago e disputas processuais
A partir de maio de 2024, KMT e TPP, somando 60 cadeiras, impulsionaram a «Lei de Reforma do Parlamento», concedendo ao Legislativo amplos poderes de investigação e audiência. O PDP acusou a aliança azul-branca de usar a maioria numérica para «aprovação direta em segunda leitura», pulando a análise substantiva nas comissões. O Tribunal Constitucional, na Decisão nº 9 de 2024 (113 年憲判字第 9 號), declarou inconstitucionais vários artigos21.
Nos dezoito meses seguintes, disputas processuais semelhantes repetiram-se. Análise orçamentária, emenda à «Lei de Repartição Fiscal», proposta do Art. 29 da «Lei de Relações entre Povos dos Dois Lados do Estreito», emenda à «Lei de Revogação» — em quase toda votação, o plenário viu ocupação da mesa, confrontos físicos e votações madrugada adentro. A cooperação azul-branca exibiu a força da maioria, mas nem sempre marcharam em uníssono. O TPP manteve reservas em certos projetos polêmicos; no KMT, alguns legisladores manifestaram publicamente discordância da linha do partido. A solidez da aliança majoritária precisa ser reconfirmada a cada votação.
O Grande Revogação de 2025
Quando os freios institucionais falharam, a sociedade civil acionou a ferramenta final que a Constituição outorga: o direito de revogação. A partir de fevereiro de 2025, mais de 1,3 milhão de pessoas subscreveram pedidos visando 31 legisladores do KMT e a prefeita de Hsinchu, Ko Hung-an (高虹安)22.
26 de julho: primeira onda, 25 votações; 23 de agosto: segunda onda, 7 votações. Todas falharam. Em alguns distritos, os votos «sim» de fato ultrapassaram o limiar de 25% do eleitorado registrado (casos de Wang Hung-wei, Hsu Chiao-hsin, Fu Kun-chi), mas os votos «não» foram sistematicamente maiores, chegando a superar a votação original do legislador23.
O resultado não alterou a composição do Legislativo, mas deixou rastros para observação de longo prazo. A energia de mobilização da sociedade civil na fase de subscrição foi sem precedentes — se ela se estenderá às eleições locais de 2026, permanece incógnita. A posição das terceiras forças (TPP, Poder da Era, Taiwan Base) no processo de revogação ficou relativamente nebulosa; apoiadores do TPP votaram majoritariamente «não» ou abstiveram-se, o que testa a capacidade da via branca de manter sua terceira via em 2026. Outra tensão: mobilização de comparecimento versus vontade cívica. Em certos distritos, os votos «sim» superaram a votação original do legislador, mas perderam para a mobilização integrada do «não». Se a ferramenta de democracia direta pode atingir o quórum num ambiente de alta polarização, é questão que cada eleição taiwanesa pós-2025 enfrentará24.
Contexto completo em Grande Revogação.
Cooperação azul-branca e o teste institucional de 2026
Em 18 de março de 2026, o Comitê Central do KMT e o Comitê Central do TPP aprovaram no mesmo dia o «Acordo de Cooperação para Governança Conjunta e Eleições Locais de 2026». O acordo, impulsionado desde outubro de 2025 pela nova presidente do KMT, Cheng Li-wen (鄭麗文), e pelo presidente do TPP, Huang Kuo-chang (黃國昌), define cinco eixos: visão política comum, mecanismo de integração de candidaturas a prefeituras, forma de execução integrada, mecanismo de campanha conjunta, governança conjunta pós-eleição. A integração de prefeituras adota «primeiro indicar, depois integrar, juntos recomendar 1 pessoa»; se necessário, pesquisa nacional define o nome, com questão comparativa frente ao principal adversário25.
Três municípios prioritários: Nova Taipé, cidade de Chiayi, condado de Yilan. Comum a eles: disputa azul-verde historicamente acirrada, terceira força com base local prévia, prefeitos atuais no fim do mandato26.
Este acordo é uma nova forma na história da cooperação partidária de Taiwan. Em 2020, a chapa Tsai-Hsiao foi composição interna ao PDP; em 2024, Ko-Wu foi indicação interna do TPP. A cooperação azul-branca de 2026 é integração sistêmica entre dois partidos independentes no nível local — pesquisa comum, indicação comum, governança comum. Difere também da «cooperação azul-branca» fracassada no fim de 2023 (integração Hou-Ko para a presidencial): a presidencial tem um só cargo, integração é jogo de soma zero; a local tem 22 condados/cidades, permite negociação zonal.
O êxito ou fracasso da cooperação azul-branca retroalimentará o formato partidário da presidencial de 2028. Se a integração fluir, o modelo de cooperação entre terceira força e grande partido pode virar nova estrutura política; se falhar, o TPP pode voltar à via independente da era Ko Wen-je em 2024. Este texto não prevê resultados, mas registra o marco de 18 de março de 2026: a política partidária de Taiwan está experimentando uma forma de cooperação nova, ainda não validada pela história.
Evolução das facções do PDP
O PDP nunca foi monolítico desde a fundação. Os 132 fundadores do Grand Hotel em 1986 vinham da Aliança Editorial Tangwai, da Associação de Políticos Tangwai, de lideranças locais — origens distintas. Duas grandes facções iniciais: Nova Corrente (前身 1983 Aliança de Editores e Escritores Tangwai, formalizada em 1987 por Qiu Yi-ren (邱義仁), Wu Nai-ren (吳乃仁), Lin Cho-shui (林濁水)) e Facção Formosa (evolução da «Linha Formosa» na Associação de Políticos Tangwai, núcleo formado por vítimas e advogados do caso Formosa)27.
Meados dos anos 1990 trouxeram nova geração e nova fragmentação. Chen Shui-bian, Xie Chang-ting, Su Zhen-chang — nem Nova Corrente nem puramente Formosa — articularam duas novas linhas: 28 de setembro de 1992, Chang Chun-hsiung (張俊雄), Yao Jia-wen, Xie Chang-ting, Shi Ming-de (施明德) fundaram a «Linha Estado de Bem-Estar» (depois «Bem-Estar»), defendendo política de bem-estar social e linha prática para os dois lados do estreito; meados/fim dos anos 1990, em torno de Chen Shui-bian consolidou-se a «Linha Justiça», com viés de «Taiwan como sujeito» e enraizamento local28.
Com a eleição de Chen Shui-bian em 2000, a Linha Justiça tornou-se momentaneamente a facção mais forte. Mas a saída de Chen em 2008 e os processos judiciais fizeram a Linha Justiça minguar rápido. A Facção Formosa também se dividiu nos anos 2000 em «Novo Século» (liderada por Chang Chun-hung (張俊宏)) e «Nova Dinâmica» (linha Xu Xinliang). A Nova Corrente, pela disciplina organizacional mais forte e linha mais coerente, tornou-se a facção mais duradoura do PDP — a «linha Ying» da era Tsai Ing-wen e a Nova Corrente da era Lai Ching-te ambas se ligam a esta linhagem de quase quarenta anos29.
A correlação entre facção e base eleitoral regional é outra camada da geografia política do PDP. Nova Corrente forte no sul (especialmente Yun-Chia-Nan) dialoga com os tradicionais «céus do sul»; Bem-Estar tem enraizamento profundo em Kaohsiung; Justiça foi fiadora de votos na Grande Taipé. Estas estruturas regionais-facccionais não aparecem nos programas centrais, mas influenciam indicação, campanha e mobilização em cada eleição local30.
Após a eleição de Tsai Ing-wen em 2016, nova recomposição. A relação Tsai–Nova Corrente foi de cooperação a tensão e depois aliança substantiva, gerando a «linha Ying» — núcleo de assessores próximos a Tsai, sobreposição programática alta com Nova Corrente, mas organização independente. Com a posse de Lai Ching-te em 2024, a Nova Corrente reassumiu como maior força organizacional do partido central. De 1987 a 2024, quase quarenta anos: a Nova Corrente é uma das facções mais longevas da história partidária de Taiwan.
Evolução das facções do KMT
A estrutura faccional do KMT existe desde a retirada para Taiwan, mas «facção» designou coisas diferentes em épocas distintas. A grande fratura inicial foi «Linha Principal vs. Linha Não Principal» — Linha Principal chefiada por Lee Teng-hui, defendendo nativização e reforma democrática; Linha Não Principal nucleada por Hau Pei-tsun (郝柏村), Lin Yang-kang, Lee Huan (李煥), defendendo continuidade da linha dos dois Chiang e ênfase na legitimidade da República da China. A saída da Nova Aliança do KMT para fundar o Novo Partido em 1993 foi a primeira grande cisão da Linha Não Principal31.
Pós-Lee Teng-hui, a narrativa faccional do KMT migrou de divergência programática para «montanhas» centradas em pessoas: Linha Lien (Lien Chan, presidente do partido 2000-2005), Linha Ma (Ma Ying-jeou (馬英九), 2005-2007 e 2009-2014), Linha Chu (Chu Li-lun (朱立倫), 2014-2016 e 2021-2025), Linha Han (Han Kuo-yu, prefeito de Kaohsiung 2018-2020 e candidato presidencial). Cada qual com sua rede local, teia de parlamentares e ecossistema midiático. O conflito Ma-Wang (2013, Ma Ying-jeou processou Wang Jin-pyng (王金平) por interferência judicial) é o emblema desta fase32.
A «onda Han» de 2018 reembaralhou a lógica de mobilização de base do KMT — a Linha Han não trouxe nova linha programática, mas um estilo de campanha «plebeu/anti-establishment». Após a derrota de Han em 2020, Chu Li-lun reassumiu a presidência em 2021, liderou a grande vitória das nove-em-um de 2022 e a indicação presidencial de 2024. Em 18 de outubro de 2025, Cheng Li-wen elegeu-se presidente com 50,15% dos votos, sucedendo Chu Li-lun ao fim do mandato. Cheng, oriunda da geração estudantil, carreira política iniciada no PDP, é a segunda mulher a presidir o KMT via eleição direta de filiados, após Hung Hsiu-chu (洪秀柱)33.
Pós-2024, com a alta popularidade sustentada de Lu Hsiu-yen (盧秀燕) em Taichung e Cheng Li-wen no comando central, a estrutura faccional do KMT entra em nova recomposição. Se Lu concorrer em 2028, como Cheng articulará com as montanhas tradicionais, como a integração azul-branca se executará no nível local — estas variáveis ditarão o mapa faccional dos próximos anos. Não se comenta estratégia individual, mas registra-se uma observação: comparado ao PDP, as facções do KMT tendem mais a «centradas em pessoa», disciplina organizacional mais frouxa; as do PDP são mais «centradas em linha», mecanismos mais institucionalizados34.
Há ainda uma linha subestimada na estrutura faccional do KMT: a linha nativista. Da rota nativista de Lee Teng-hui, à rede local de Wang Jin-pyng no Legislativo, ao discurso plebeu da campanha de Han Kuo-yu pós-2018, a fratura «nativista vs. exterior» dentro do KMT» vs. «ex-provincial» atravessa dos anos 1990 até hoje. Esta linha conecta-se diretamente à base regional — a vantagem duradoura do KMT no centro (especialmente Taichung, Changhua) e em parte do leste deve-se ao enraizamento local da facção nativista.
O lugar da terceira força
A posição do TPP em 2026 é particular. Na presidencial de 2024, Ko Wen-je obteve 3,69 milhões de votos (26,5%), maior votação nominal de candidato de terceira força desde James Soong em 2000. Mas, no fim de 2024, Ko foi detido no caso Core Pacific City (京華城), e o TPP entrou em fase de declínio simultâneo de organização e visibilidade. A presidência passou a Huang Kuo-chang, a linha girou de «além do azul e verde» para «cooperação azul-branca»35.
O Poder da Era perdeu 3 cadeiras na legislativa de 2020; em 2024 ficou com 0 na lista nacional, energia organizacional em clara retração. A Taiwan Base (台灣基進) também entrou em maré baixa após a derrota na revogação do legislador Chen Po-wei (陳柏惟) em 2020. O verdadeiro teste das terceiras forças em 2026 é saber se o TPP consegue converter em votos locais a energia organizacional da cooperação azul-branca sem perder a própria identidade36.
Da fundação do Novo Partido em 1993 à cooperação azul-branca de 2026, as terceiras forças de Taiwan repetem trajetória similar: nascem da insatisfação com os dois grandes, sobem rápido com líder carismático, sob pressão dupla do sistema (distrito único com dois votos) e de recursos (organização local) definham progressivamente. Se este ciclo se quebrará em 2026, é o próximo ponto de observação da história partidária taiwanesa.
Vale registrar: o distrito único com dois votos implementado em 2008 comprime estruturalmente o espaço de sobrevivência das terceiras forças. As 73 cadeiras de legisladores distritais usam distrito único: o segundo mais votado não leva nada. Mesmo que a terceira força atinja certa votação nacional, se não for primeira em nenhum distrito local, as cadeiras mal refletem o apoio popular. Este desenho institucionaliza a vantagem dos dois grandes partidos e empurra cada ascensão de terceira força de volta ao dilema «aliança ou marginalização».
Leitura complementar
- Transição Democrática de Taiwan — Panorama dos quarenta anos da lei marcial à abertura
- Caso Formosa — A noite de 1979 que mudou o destino de Taiwan
- Período da Lei Marcial — Como trinta e oito anos de lei marcial moldaram a sociedade taiwanesa
- Documento de Resolução sobre o Futuro de Taiwan — Da plataforma independentista do PDP ao Documento de Resolução: como a guinada programática reescreveu o xadrez eleitoral
- Grande Revogação — O fio completo da maior ação de revogação da história, movida pela sociedade civil em 2025
- Eleições Nove-em-Um de 2026 — Disposição das 22 disputas locais e teste institucional
- O que são as Eleições Nove-em-Um — Explicação do sistema de eleições unificadas para cargos locais
- Sistema de Chefes de Vila/Bairro — O cargo eletivo mais basal de Taiwan
- Sistema de Vereadores — Evolução institucional de vereadores de condados/cidades e municípios especiais
- Politics Hub — Porta de entrada para o panorama do ambiente político de Taiwan
Referências
- Base de Dados Eleitorais da Comissão Eleitoral Central: Eleição Presidencial Direta de 1996 — Lee Teng-hui 5,81 milhões (54%), participação 76%↩
- The Reporter: Especial 40 anos do Incidente de Zhongli (2017) — Cidadãos cercaram a delegacia de Zhongli protestando contra fraude eleitoral; Jiang Wen-kuo e Zhang Zhi-ping morreram↩
- Wikipédia: Incidente de Zhongli — Xu Xinliang venceu com 235.946 votos, Ou Xianyu 147.851↩
- Arquivo Nacional de História de Taiwan: Eleições Locais do Pós-Guerra — Eleição da Assembleia Provincial de 1950 foi a primeira eleição local civil do pós-guerra↩
- Wikipédia: Wu San-lian — Eleito prefeito de Taipé em 1951 com 65,6%, primeiro prefeito eleito diretamente da República da China↩
- VoteTW: Guo Yu-xin — Eleição legislativa de 1975 em Yilan teve quase 100 mil votos nulos anômalos; Yao Jia-wen e Lin Yi-xiong moveram a primeira ação eleitoral↩
- Wikipédia: História do Partido Democrático Progressista — Fundação em 28/09/1986 no Grand Hotel, 132 presentes, Chiang Ching-kuo optou por tolerar↩
- Comissão Eleitoral Central: Eleição Legislativa de 1986 — PDP com dois meses obteve 22,2% e 12 cadeiras↩
- Arquivo Nacional de História: Renovação Total do Parlamento 1991-1992 — Fim do parlamento de dez mil anos mantido por 43 anos↩
- Base de Dados Eleitorais da Comissão Eleitoral Central: Eleição Presidencial de 2000 — Chen Shui-bian 4,97 milhões (39,3%), James Soong 4,66 milhões (36,8%), Lien Chan 2,92 milhões (23,1%)↩
- Wikipédia: Caso de Tiroteio de 19 de Março (2004) — Véspera da eleição Chen Shui-bian e Lu Xiu-lian baleados; suspeito Chen Yi-xiong afogado↩
- Wikipédia: Lista de Partidos de Taiwan — Contexto de fundação do Novo Partido (1993), Partido da Primeira-Mão (2000), União de Solidariedade de Taiwan (2001)↩
- Site Oficial do Poder da Era — Fundado em 2015 a partir do Movimento Girassol; Partido Popular de Taiwan fundado por Ko Wen-je em 2019↩
- Taipei Times: Gabinete diz não haver plano para voto em trânsito (2024/03) — Taiwan ainda não tem voto em trânsito; eleitor deve votar presencialmente no domicílio de registro↩
- Comissão Eleitoral Central: Eleições Nove-em-Um de 2018 — Han Kuo-yu 892.545 votos venceu Chen Chi-mai; KMT levou 15 prefeituras↩
- Wikipédia: Referendo Nacional de 2018 da República da China — Dez casos simultâneos; caso 10 aprovado, mas 2019 legislou casamento homoafetivo mesmo assim↩
- Base de Dados Eleitorais da Comissão Eleitoral Central: Eleição Presidencial de 2020 — Tsai Ing-wen 8.170.186 votos (57,1%), maior votação nominal da história eleitoral de Taiwan↩
- Comissão Eleitoral Central: Eleição Presidencial de 2024 — Lai Ching-te 5,58 milhões (40,1%), primeira vez na direta que vencedor fica abaixo de 50%↩
- Wikipédia: Artigos Adicionais da Constituição da República da China — 2005 Assembleia Nacional se autoextingue, Legislativo de 225 para 113 cadeiras↩
- Comissão Eleitoral Central: Eleição Legislativa de 2024 — 11º Legislativo: PDP 51 / KMT 52 / TPP 8 / Independentes 2, nenhum partido com maioria↩
- Judiciário: Decisão nº 9 de 2024 (113 年憲判字第 9 號) — Julgamento de inconstitucionalidade de artigos da Lei de Exercício de Poderes do Legislativo, proclamado em 25/10/2024↩
- Grande Revogação - Wikipédia — Fevereiro de 2025, 1,3 milhão subscreveram, 31 legisladores do KMT e Ko Hung-an alvos↩
- Resultados das Revogações de Legisladores 2025 - Agência Central de Notícias — 26/07 primeira onda 25 casos, 23/08 segunda onda 7 casos, todos falharam↩
- Desmontando a grande derrota da «Grande Revogação» de Taiwan - BBC — Análise profunda: votos «sim» passam limiar de 25% mas «não» são maiores↩
- Azul-Branco fecham acordo de cooperação partidária 2026; integração de prefeituras via pesquisa nacional - Agência Central de Notícias — 18/03/2026 Comitê Central do KMT e Comitê Central do TPP aprovam simultaneamente acordo de cooperação↩
- Azul-Branco fecham acordo de cooperação para 2026; Huang Kuo-chang: Nova Taipé, Chiayi, Yilan formam «time nacional» mais forte - United Daily News — Planos de integração dos três municípios prioritários↩
- Nova Corrente - Wikipédia — Anterior 1983 Aliança de Editores e Escritores Tangwai, formalizada em 1987 por Qiu Yi-ren, Wu Nai-ren, Lin Cho-shui↩
- Linha Estado de Bem-Estar - Wikipédia — 28/09/1992 fundada por Chang Chun-hsiung, Yao Jia-wen, Xie Chang-ting, Shi Ming-de↩
- 【Edição História】 Onde está agora a outrora poderosa «Facção Formosa»? - Critical Review Network — Trajetória da cisão da Facção Formosa em «Novo Século» e «Nova Dinâmica»↩
- Chen Hua-sheng: Análise da evolução das facções do PDP e seu impacto político - Fundação de Pesquisa de Políticas Nacionais — Estudo de longo prazo sobre correlação facção-base regional↩
- Wikipédia: Linha Principal e Linha Não Principal — Divergência programática anos 1990 entre Lee Teng-hui (Linha Principal) e Hau Pei-tsun et al. (Linha Não Principal), saída do Novo Partido em 1993↩
- Wikipédia: Conflito de Setembro — Conflito interno de 2013 entre Ma Ying-jeou e Wang Jin-pyng por interferência judicial↩
- Cheng Li-wen eleita presidente do KMT - Agência Central de Notícias — 18/10/2025 eleita com 50,15% (65.122 votos)↩
- Wikipédia: Lista de Facções do Kuomintang — Estrutura e evolução das montanhas Lien, Ma, Chu, Han↩
- Comissão Eleitoral Central: Eleição Presidencial de 2024 — Ko Wen-je 3,69 milhões (26,5%), maior votação nominal de candidato de terceira força↩
- Wikipédia: Poder da Era — Trajetória de declínio: perdeu 3 cadeiras em 2020, 0 na lista nacional em 2024↩