Resumo de 30 segundos: Em 1994, Huang Wu-hsiung propôs a ideia de universidades comunitárias de base popular. Em 1998, a primeira universidade comunitária de Taiwan foi estabelecida no distrito de Wenshan, em Taipé. Este artigo acompanha um movimento educativo que nasceu para levar a aprendizagem de adultos à vida pública e que, através de currículos, associações, investigação local e enquadramento legal, se tornou uma prática quotidiana da sociedade civil taiwanesa.
Em 1994, o professor de matemática da Universidade Nacional de Taiwan, Huang Wu-hsiung, apresentou a proposta de universidades comunitárias de base popular. Em 1998, a primeira universidade comunitária de Taiwan foi fundada no distrito de Wenshan, em Taipé. Em 20 de setembro de 1999, a universidade comunitária de Yonghe realizou a sua cerimónia de fundação na Escola Secundária Fuhe, com Huang Wu-hsiung como diretor fundador.1 2
Estas três datas parecem um calendário do sistema educativo, mas a verdadeira questão não é «quantas universidades comunitárias existem em Taiwan». A questão é: por que razão uma escola sem requisitos de habilitações académicas, nem o ingresso no ensino superior como objetivo principal, levaria o seu currículo para rios, ruas antigas, jornais comunitários e questões locais?
A resposta de Huang Wu-hsiung é direta. Ele não via a universidade comunitária como uma universidade mais barata, nem como um trampolim para a universidade convencional. O que ele queria resolver era outra lacuna deixada pelo fim da lei marcial: as pessoas tinham o voto, mas não necessariamente a experiência de discussão pública suficiente para lidar em conjunto com os problemas do seu quotidiano.3
📝 Nota da curadoria: O mais contra-intuitivo nas universidades comunitárias é que parecem escolas, mas na verdade transformam a questão «a escola deve apenas dar aulas?» num problema democrático.
Uma escola que começa pelo «não é o quê»
No plano de implementação para governos locais que Huang Wu-hsiung organizou em 2012, a universidade comunitária distingue-se das «faculdades comunitárias» que apenas enfatizam a aprendizagem ao longo da vida ou a formação técnico-profissional. Esse documento colocava a reforma educativa e a reforma social lado a lado, defendendo que a universidade comunitária deve expandir a esfera pública dos cidadãos, cultivando capacidades de reflexão, pensamento crítico e análise.4
Esta diferença não é um jogo de palavras. Se a universidade comunitária apenas deslocar currículos prontos para o período noturno, os alunos continuam a ser apenas consumidores depois da aula. O aluno imaginado por Huang Wu-hsiung deve ser capaz de ir de «quero aprender uma disciplina» para «quero compreender um problema junto com os meus vizinhos». No seu desenho, as atividades associativas não são um extra curricular, mas o espaço de aprendizagem para o contacto com assuntos públicos.
A página histórica da universidade comunitária de Yonghe preserva esta divisão curricular. Os cursos académicos tratam de humanidades, ciências naturais e sociais; os cursos de atividades associativas permitem aos alunos praticar a participação em assuntos públicos; os cursos de artes de vida tratam de competências e quotidiano. Os três não cortam a pessoa em três utilidades, mas voltam a ligar o mundo de uma pessoa.1
Este desenho também explica por que razão marcenaria, astronomia, cinema, história local podem coexistir numa universidade comunitária. Uma reportagem de Taiwan Panorama indica que a universidade comunitária de Wenshan, no início, ofereceu disciplinas comuns nas universidades convencionais, como economia e ciência política, mas depois percebeu que o «conhecimento empacotado» da academia nem sempre serve os adultos, passando a aumentar cursos experienciais como marcenaria, astronomia e «ver etnias através do cinema», e incentivando os alunos a organizar associações e participar na construção comunitária.5
📝 Nota da curadoria: A universidade comunitária não baixa a dificuldade do conhecimento, mas devolve-o ao lugar onde as pessoas realmente vivem, fazendo com que uma grade curricular comece a tocar um rio, uma casa e um pedaço de história ignorada.
Wenshan: a primeira sala de aula tem o lugar lá fora
A universidade comunitária de Wenshan, fundada em 1998, não tinha um precedente taiwanês para copiar. Tinha de responder por que razão um adulto regressaria à sala de aula fora do trabalho e da família, e também se a aprendizagem podia ficar na comunidade depois de a aula acabar. Isso fez do «lugar» não apenas o endereço, mas o material didático.
A edição em inglês da Taiwan Panorama reportou a investigação local de Wenshan, registando professores e alunos a sair da sala de aula, medir a qualidade da água do Lago Habita, observar o ambiente envolvente e, através de documentos locais e do trabalho dos moradores, acumular o «saber de Wenshan». O mesmo artigo menciona que professores e alunos de universidades comunitárias em todo Taiwan se envolveram em preocupações ambientais, registo histórico e ações culturais locais, tornando a universidade comunitária um nó de ação cultural de base.6
Aqui há uma viragem fácil de ignorar. A universidade comunitária não parte de um «currículo de revitalização local» planeado centralmente para depois preencher com o lugar. Muitas vezes, deixa primeiro os moradores caminhar juntos, entrevistar, medir, organizar dados, para só então perceberem coletivamente o que falta à sua comunidade. O currículo, assim, não apenas transmite respostas, mas também fabrica perguntas.
A universidade comunitária de Yonghe oferece outro exemplo concreto. À véspera da elevação de Nova Taipé a município especial, em 2010, a universidade comunitária de Yonghe uniu-se a profissionais da área de Shuanghe e ONGs para formar a Aliança Visão Ecológica de Shuanghe, elencando como reivindicações transporte verde, vida verde, espaço verde e direitos verdes, colocando a gestão escolar, a construção comunitária e a participação cívica no mesmo eixo. É o caso de uma única escola, não generalizável a todas, mas ilustra como o currículo pode sair do portão.1
📝 Nota da curadoria: Quando uma aula começa a medir a água do rio, consultar crónicas locais, perguntar aos moradores como vivem, a escola deixa de ser apenas o edifício que «presta serviços» e torna-se ferramenta de pensamento coletivo da comunidade.
O que Huang Wu-hsiung realmente teme não é a falta de alunos
Num artigo publicado na universidade comunitária de Wenshan, Huang Wu-hsiung situa a universidade comunitária no contexto social posterior ao fim da lei marcial, em 1987. Ele considera que a democratização trouxe liberdade e espaço de associação, mas os problemas deixados pelo longo domínio autoritário continuariam a emergir. Para ele, a aprendizagem social e a democratização devem avançar juntas, caso contrário o voto não se transforma automaticamente em capacidade de julgamento público.3
É uma afirmação com forte carga reivindicativa, não uma conclusão histórica que todos devam aceitar. O seu valor está em puxar a «educação» da linguagem da promoção individual de volta à vida cívica: como as pessoas compreendem questões públicas, como discutem com quem pensa diferente, como organizam ação quando não há político a falar por elas.
O artigo académico de 2006 de Tsai Hung-cheng sistematiza esta ideia como «libertar o conhecimento, gerar sociedade civil». O artigo aponta que os fundamentos filosóficos da universidade comunitária incluem a distinção entre «conhecimento empacotado» e «conhecimento experiencial», refinando depois essa distinção com o conceito de conhecimento tácito, e discute os problemas práticos enfrentados pela universidade comunitária como movimento de iluminação cultural. É uma análise de investigador, não uma citação direta de Huang Wu-hsiung.7
Este lembrete é importante. A história da universidade comunitária não pode ser escrita apenas como vitória do idealismo. Manter a publicidade do currículo exige colaboração de longo prazo entre professores, pessoal administrativo, alunos e organizações locais. Recursos, divisão organizacional, formas de contratação pública e filosofia de gestão mudam o que uma universidade comunitária consegue fazer.
Um estudo de 2013, tomando como objeto três universidades comunitárias certificadas pela Federação Nacional de Promoção na categoria «Gestão Escolar e Participação Pública», identificou três modelos: tipo de divisão profissional, tipo de despertar de consciência e tipo de aliança estratégica de ONG. O estudo lista ainda diferentes métodos como capacitação administrativa, orientação curricular, orientação associativa, construção comunitária e aliança estratégica.8
| Tempo | Viragem | O que esta viragem mudou |
|---|---|---|
| 1994 | Huang Wu-hsiung propõe universidades comunitárias de base popular | A aprendizagem comunitária entra no problema da democracia e da reforma social |
| 1998 | Fundação da universidade comunitária de Wenshan | A primeira universidade comunitária de Taiwan começa a transformar o ideal em gestão quotidiana |
| 1999 | Surgimento de universidades comunitárias em Yonghe e outros locais | Preparação civil e cooperação com governos locais fazem o modelo expandir-se |
| 2018 | Promulgação da Lei de Desenvolvimento das Universidades Comunitárias | As universidades comunitárias obtêm enquadramento legal mais claro, mas enfrentam novas exigências da institucionalização |
📝 Nota da curadoria: A dificuldade das universidades comunitárias não é «quem vence, o ideal ou a realidade», mas o facto de o ideal, uma vez dentro de orçamentos, espaços e avaliações, ter de ser renegociado todos os dias.
De movimento civil a texto legal
A explicação de política do Yuan Executivo regista que, no ano 87 da República (1998), o distrito de Wenshan, em Taipé, fundou a primeira universidade comunitária. Até ao ano 106 (2017), existiam 86 em todo o país, com 400 mil participações de alunos. Estes números pertencem a dados de política de 2017, não à situação de 2026.9
A mesma explicação não apresenta a institucionalização como notícia puramente boa. As universidades comunitárias enfrentam falta de instalações fixas, financiamento insuficiente e ausência de lei orgânica superior, pelo que o Ministério da Educação propôs o projeto da Lei de Desenvolvimento das Universidades Comunitárias. O Yuan Legislativo aprovou a lei em terceira leitura a 18 de maio de 2018, tratando simultaneamente de autoridade competente, instalações, subsídios, avaliação e certificação de aprendizagem.9
Um artigo em inglês do Ministério da Educação indica que esta lei de 17 artigos foi promulgada pelo Presidente a 13 de junho de 2018, com o objetivo de dar às universidades comunitárias uma posição legal mais clara e ajudar a resolver problemas de instalações e verbas de funcionamento. O Ministério também elenca alfabetização cívica, participação em assuntos públicos, identidade local, cultura local e sustentabilidade comunitária como metas das universidades comunitárias.10
A lei torna as universidades comunitárias menos vulneráveis a serem tratadas como projetos temporários, mas traz outro problema: quando um movimento educativo nascido da exploração civil entra no sistema administrativo, como preservar a sua sensibilidade aos problemas locais? Se a avaliação só contar número de cursos, matrículas e taxas de execução, o mais difícil de quantificar — diálogo, confiança, capacidade cívica — não acabará empurrado para o fim da fila?
Um capítulo académico em inglês indexado na Springer situa as universidades comunitárias taiwanesas no contexto da construção da sociedade civil após os anos 1980, argumentando que a educação de adultos pode tornar-se via para as pessoas participarem em movimentos sociais e levarem vozes marginalizadas à esfera pública. O capítulo também assinala que, após a fundação da primeira universidade comunitária em 1998, este modelo continuou a evoluir como força social promotora da sociedade civil.11
📝 Nota da curadoria: A institucionalização não é o final da história; apenas move a questão «quem decide o que se aprende, para quem se aprende» da sala de aula para a política pública.
O eco deixado por uma grade curricular
Hoje, olhando para trás para Huang Wu-hsiung e as universidades comunitárias, talvez o mais importante não seja o recorde de «primeira», mas a sua tentativa de ligar aprendizagem e vida pública. Essa tentativa não garante que cada curso vire movimento social, nem que cada aluno entre para uma organização local.
Ela apenas coloca uma pergunta incómoda: a educação serve apenas para tornar as pessoas mais adequadas ao sistema existente? Se na sala de aula o aluno aprende a reconhecer a poluição de um rio, rastrear a história de um mercado, compreender uma política local, e depois discute com outros se deve mudar, essas ações podem não produzir resultados imediatos, mas alteram a relação da pessoa com o lugar.
Huang Wu-hsiung escreveu num artigo de advocacia: «Promover universidades comunitárias é realizar plenamente a aprendizagem social.»3 O peso desta frase não está em soar grandiosa, mas em alargar o objeto da aprendizagem do manual para a vida partilhada. E faz com que a universidade comunitária enfrente permanentemente um padrão inescapável: será que realmente torna os alunos mais capazes de compreender problemas públicos e de os enfrentar em conjunto?
📝 Nota da curadoria: A universidade comunitária não deixa um diploma, mas uma possibilidade — a de, depois da aula, começar a tratar o lugar onde se vive como um mundo que precisa de ser compreendido em conjunto.
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Imagem: Ephemeral Days, 〈Taipei Municipal Wenshan School of Special Education〉, Wikimedia Commons, CC BY-SA 4.0. Página do arquivo da imagem: Wikimedia Commons.
Leitura complementar
Federação Nacional de Promoção de Universidades Comunitárias: base de dados e prática social
Referências
- Universidade Comunitária de Yonghe: a nossa história — Página histórica oficial da universidade comunitária de Yonghe, regista a advocacia de 1994, a preparação de 1998, a fundação de 1999, e o percurso de gestão das três categorias de cursos e ações locais.↩23
- Universidade Comunitária de Wenshan, Taipé: a intenção original de advogar universidades comunitárias — Texto público de Huang Wu-hsiung de 2008, explica o contexto e a intenção original da advocacia da universidade comunitária a partir da aprendizagem social e democratização pós-fim da lei marcial.↩
- Universidade Comunitária de Wenshan, Taipé: a intenção original de advogar universidades comunitárias — Texto original do protagonista no mesmo artigo oficial, apoia diretamente a ligação entre aprendizagem social, compreensão pública e aprofundamento democrático.↩23
- Federação Nacional de Promoção de Universidades Comunitárias: que tipo de universidade comunitária queremos? — Texto do plano de Huang Wu-hsiung para governos locais, distingue reforma educativa e reforma social, propõe desenho de esfera pública, cursos associativos e participação local.↩
- Revista Taiwan Panorama: novo despertar de aprendizagem em Taiwan, 20 anos de universidades comunitárias — Reportagem de revista autoritária retrospectiva da primeira escola de Wenshan e transformação curricular, explica como conhecimento empacotado, conhecimento experiencial e construção comunitária se encontram na prática.↩
- Taiwan Panorama: Taiwan’s Community Colleges Foster Grassroots Activism — Artigo autoritário em inglês, reporta casos concretos de investigação local, monitorização ambiental, registo histórico e envolvimento de professores e alunos em ações de base.↩
- Tsai Hung-cheng: sobre como é possível a «libertação do conhecimento» nas universidades comunitárias — Artigo académico na Revista de Investigação em Educação e Sociedade, analisa a ideia de libertação do conhecimento de Huang Wu-hsiung, conhecimento empacotado e experiencial, e discute o posicionamento da universidade comunitária como iluminação cultural.↩
- Li Cheng-an: estudo dos modelos de gestão escolar das universidades comunitárias na promoção da participação pública — Página do artigo de tese de mestrado da Universidade Normal Nacional de Kaohsiung, investiga três universidades comunitárias com diferentes modelos de gestão e estratégias de participação pública, mostra diferenças organizacionais após a concretização do ideal.↩
- Yuan Executivo: Lei de Desenvolvimento das Universidades Comunitárias — lei especial promove desenvolvimento sustentável — Página de explicação de política governamental, fornece quantidade de universidades comunitárias e estatísticas de alunos antes de 2017, e explica contexto de política sobre instalações, verbas, avaliação e legalização.↩2
- Ministry of Education: President Tsai Promulgates the Community College Development Act — Página de artigo em inglês do Ministério da Educação, regista promulgação da lei em 2018, conteúdo dos 17 artigos e posicionamento oficial de alfabetização cívica, cultura local e sustentabilidade comunitária.↩
- Amy Shi-min Chen and Wei-ni Wang: From Education to Grassroots Learning — Capítulo académico em inglês da Springer, situa as universidades comunitárias taiwanesas no contexto internacional de investigação sobre democratização, sociedade civil, educação de adultos e participação local.↩