Jiutian Xuannu: da conselheira militar do Imperador Amarelo à protetora dos jovens das trupas de templo em Taiwan

Um líder de trupe de templo com apenas o ensino médio, humilhado por avaliadores do Conselho de Assuntos Culturais por mais de uma década, passou 11 anos obtendo um doutorado para provar que ensinar jovens que abandonaram a escola a tocar tambor também é arte. Atrás dele está uma deusa que ensinou o Imperador Amarelo a fazer guerra há quatro mil anos.

Visão geral em 30 segundos: Jiutian Xuannu (九天玄女) é a deusa da mitologia chinesa que ensinou o Imperador Amarelo a derrotar Ch'ih-yu (蚩尤); ao cruzar o mar para Taiwan, tornou-se padroeira da indústria do incenso, substituta do Yue Lao (月老, o "Velho da Lua" do casamento) e "garantia de aprovação" em exames. Mas seu capítulo mais comovente em Taiwan se passa na montanha Ta-tu-shan (大肚山), em Taichung, onde um homem chamado Hsu Chen-jung (許振榮) usou seu nome para acolher jovens descartados pela escola, transformou a trupe de templo (zhentou, 陣頭) em arte de palco apresentada no Lincoln Center de Nova York e inspirou um filme que arrecadou 320 milhões de novos dólares taiwaneses.


Um homem "humilhado" por mais de uma década

Em 1995, Hsu Chen-jung fundou a "Tropa de Artes Folclóricas Jiutian" (九天民俗技藝團) no templo Jiutian Xuannu (九天玄女廟) na montanha Ta-tu-shan, em Taichung. Ele tinha apenas o ensino médio; seus integrantes eram jovens que ninguém queria — alunos que abandonaram os estudos.

Naquele tempo em Taiwan, as duas sílabas "zhentou" (陣頭) praticamente equivaliam a "chefes de gangue" (角頭). As trupas de templo desfilavam nas ruas tocando gongos e tambores, carregando palanquins divinos, encenando Ba Jia Jiang (八家將, os "oito generais"); a imagem social era uma só: coisa de "meninos maus". Hsu Chen-jung levou a trupe ao Conselho de Assuntos Culturais (文建會, predecessor do Ministério da Cultura) pedir subsídio artístico; o resultado foi ser repetidamente "humilhado" por avaliadores e professores. Eles não consideravam zhentou arte de espetáculo; achavam que era atividade de gangue.

(Conforme reportagem do Liberty Times de 2018)

Hsu Chen-jung disse depois que "sentiu profundamente que devia se fortalecer no meio acadêmico para poder dialogar de igual para igual com especialistas e acadêmicos". Assim, esse líder de trupe que levava dropouts a tocar tambor começou a estudar no programa de créditos da Universidade Mingdao (明道大學), passou pelo bacharelado tecnológico da Universidade Ling Tung (嶺東大學), pelo EMBA da mesma instituição e pelo doutorado da Universidade de Ciência e Tecnologia Chaoyang (朝陽科技大學) — 11 anos no total — até obter o doutorado em Gestão Industrial e Estratégia Empresarial em 2018.

O que fez depois do doutorado? Voltou à Ta-tu-shan, continuar levando as crianças a tocar tambor.

📝 Nota do curador: Hsu Chen-jung levou 11 anos para tirar o doutorado, não para deixar o zhentou, mas para que o zhentou deixasse de ser olhado com desdém. Essa escolha já é uma história por si só.


A conselheira militar no campo de batalha antigo

A história de Jiutian Xuannu começa na guerra mais famosa da mitologia chinesa.

O Imperador Amarelo (黃帝) e Ch'ih-yu (蚩尤) travaram batalha em Cho-lu (涿鹿). Ch'ih-yu "fez grande neblina por três dias" (作大霧彌三日), o exército do Imperador Amarelo perdeu a orientação e recuou sucessivamente. No momento em que todas as estratégias se esgotaram, uma deusa "de rosto humano e corpo de ave" (人首鳥身) desceu dos céus — transmitiu arte militar, Ch'i-men Tun-chia (奇門遁甲), a técnica dos Seis Ren (六壬之術) e até presenteou o carro indicador de sul (指南車) para distinguir direções. Com isso, o Imperador Amarelo venceu Ch'ih-yu e lançou as bases da civilização Huaxia.

O relato mais antigo aparece em textos taoistas como Nei Chuan do Imperador Amarelo (《黃帝內傳》) e Sete Tabuletas das Nuvens (《雲笈七籤》). No Tang, o sacerdote taoista Tu Kuang-t'ing (杜光庭) concedeu-lhe o título honorífico "Nove Céus" (九天) no Registro dos Imortais Reunidos na Cidade Murada (《墉城集仙錄》), elevando-a de figura misteriosa do folclore a alta imortal do panteão taoista.

Mas Jiutian Xuannu nunca foi apenas deusa da guerra. Nos textos antigos ela também domina astronomia, geografia, artes adivinhatórias, alquimia — é a encarnação da sabedoria, não uma simples divindade marcial. Essa multifuncionalidade plantou as sementes para sua posterior "explosão de atribuições" em Taiwan.


Após cruzar o mar: da deusa da estratégia à "Mãe do Incenso" de Taiwan

O culto a Jiutian Xuannu já estava firmado em Taiwan no período Qing. Segundo registros do Conhecimento Religioso+ do Ministério do Interior, há dezenas de templos registrados com Jiutian Xuannu como divindade principal; somando os templos onde ela é cultuada secundariamente e os pequenos altares não registrados, o número real é muito maior.

Chegando a Taiwan, o "escopo de atuação" de Jiutian Xuannu sofreu uma expansão surpreendente.

Na China continental, ela era principalmente "deusa da arte militar" e "deusa das artes adivinhatórias". Em Taiwan, ganhou um título que não existe no continente — "Mãe do Incenso" (香媽). A lenda conta que, antes de ascender, Jiutian Xuannu era uma filha piedosa que curou a doença do pai com incenso feito de ervas medicinais; por isso, os fabricantes de incenso de Taiwan a reverenciam como padroeira do setor. Da arte militar à fabricação de incenso, um salto que provavelmente a própria Jiutian Xuannu não previu.

Não só o incenso. O Palácio Jiutian Xuannu de Tainan (台南九天玄女宮) é famoso por eficácia em assuntos amorosos; o Templo Jiutian Xuannu de Chia-i (嘉義九天玄女廟) ferve de incenso na época de vestibulares; templos de vários lugares oferecem bênçãos para fertilidade, proteção de bebês, feng shui, consultas espirituais. Uma conselheira militar de quatro mil anos atrás virou consultora "tudo em um" do Taiwan popular.

Essa "inflação de atribuições" não é exclusiva de Jiutian Xuannu. Kuan Sheng-ti-chün (關聖帝君) passou de deus marcial a deus do comércio e protetor da polícia; Ma-tsu (媽祖) foi de deusa do mar a "Santa Mãe Celestial" que cuida de tudo. Por trás disso está o espírito pragmático de uma sociedade de imigrantes: os fiéis não vão checar as atribuições originais no Sete Tabuletas das Nuvens; só querem saber uma coisa — funciona ou não.

📝 Nota do curador: Em Taiwan, uma deusa que há quatro mil anos ensinava o Imperador Amarelo a dispor tropas, hoje recebe mais a pergunta: "Eu e ele/ela ainda temos chance?"


Chao-feng-kung (朝奉宮): um templo, nove faces

O Chao-feng-kung (朝奉宮) no vilarejo Chu-k'eng (竹坑里), distrito de Lung-ching (龍井), Taichung, fundado no primeiro ano de Tao-kuang (道光, 1821), autodenomina-se "o único local de Taiwan que venera o vestígio sagrado mais original de Jiutian Xuannu". Sua particularidade está no modo de culto: Jiutian Xuannu é dividida em nove imagens, da "Grande Mãe" (大媽) à "Nona Mãe" (九媽), cada qual com sua função, chamadas coletivamente de "Mães do Laço Conjugal" (連理媽). Essa forma de "nove imagens, nove funções" é produto da localização taiwanesa; não se vê em templos de Jiutian Xuannu na China continental.

Outros templos representativos incluem o Palácio da Caverna Espiritual da Montanha Imortal (仙山靈洞宮) em Shih-t'an (獅潭), Miao-li (苗栗) — com comissão gestora desde 1949, hospedagem e ponto de turismo religioso na montanha —, o Palácio Jiutian Xuannu da Ta-tu-shan (berço da Tropa de Artes Folclóricas Jiutian) e o Templo Jiutian Xuannu de Chia-i. Todo ano, na temporada de vestibulares, os templos lotam de candidatos pedindo "lista de ouro". Uma deusa da arte militar antiga, no século XXI, recebe como encomenda mais frequente: "proteger para tirar boa nota no GSAT (統測)".


Tropa de Artes Folclóricas Jiutian: a baqueta vale mais que aula de reforço

A intuição central de Hsu Chen-jung ao fundar a trupe é simples: se um dropout topa treinar tambor de guerra oito horas sob sol escaldante, levantar às três da madrugada para preparar a procissão, repetir o mesmo movimento mil vezes por uma única apresentação — o que lhe falta nunca foi disciplina, e sim um adulto disposto a acreditar nele.

A baqueta na mão exige ritmo único; quem folga faz a fileira inteira errar. Isso funciona melhor que qualquer programa de orientação.

Mas a ambição de Hsu Chen-jung não parava aí. Ele não aceitava que o zhentou ficasse na margem das festas de templo. Reorganizou tambores tradicionais, deuses fantoches (神偶), elementos do Terceiro Príncipe (三太子, Nezha), fundiu-os com iluminação e música de teatro moderno, elevando o zhentou de rua a arte de palco. Obras representativas: O Carro de Água de K'ou-hu (《牽水車藏》), baseado no festival folclórico do carro de água de K'ou-hu (口湖), Yun-lin (雲林); O Príncipe Mendigo (《乞丐太子》), centrado no fantoche do Grande Xamã (大仙尪); e Saída do General (《出將》), que confronta de frente o preconceito "zhentou é coisa de menino mau".

Resultado? Quase trinta anos, a Tropa de Artes Folclóricas Jiutian pisou nos cinco continentes, em mais de 100 cidades, acumulando mais de 1.100 apresentações. Em 2012, subiu ao palco do Lincoln Center de Nova York. Em 2011, levou até a imagem do Terceiro Príncipe para cruzar o Deserto do Saara numa ultramaratona.

Hoje, a trupe tem uma regra de ferro: todo integrante deve cursar universidade. Aqueles jovens que a escola descartou agora todos têm diploma de nível superior; alguns já obtiveram mestrado.

Hsu Chen-jung diz: "O que os outros já fizeram, eu jamais repito." (Conforme entrevista à Fundação Transcend)

📝 Nota do curador: Jiutian Xuannu na mitologia ensinou o Imperador Amarelo a fazer guerra; em Taiwan ensina dropouts a tocar tambor. Quatro mil anos se passaram, seu negócio principal não mudou — puxar de volta quem estava prestes a perder.


_Zhentou_ (《陣頭》): 40 milhões de custo, 320 milhões de bilheteria

No Ano Novo Lunar de 2012, o diretor Feng K'ai (馮凱) filmou Zhentou (《陣頭》) baseado na história real da Tropa de Artes Folclóricas Jiutian. Feng K'ai era diretor de novelas de TV havia 27 anos; Zhentou foi seu primeiro longa-metragem. Custo de produção abaixo de 40 milhões de novos dólares taiwaneses; em 12 dias de exibição a bilheteria passou de 100 milhões, fechando em cerca de 320 milhões. Pelo padrão do cinema nacional da época, uma vitória completa.

Estrelado por K'o Yu-lun (柯有倫) e Huang Hung-sheng (黃鴻升, "Pequeno Fantasma"). O filme narra um jovem rebelde que volta à terra natal para assumir a trupe do pai, encontrando a si mesmo no choque entre tradição e inovação. Enredo não complexo, mas fez algo que o cinema taiwanês raramente consegue: fez "zhentou" — palavra longamente associada a gangues e dropouts — ganhar atenção positiva na sociedade mainstream pela primeira vez.

Após o lançamento, inscrições em trupas de zhentou aumentaram visivelmente em toda Taiwan. Mais importante: os jovens que no zhentou acharam uma segunda vida finalmente puderam erguer a cabeça e não precisaram mais explicar por que "vão pular zhentou".


O porta-voz sagrado feminino

No culto popular de Taiwan, o jitong (乩童, médium) é a ponte entre divindades e humanos. Os templos de Jiutian Xuannu têm uma característica rara em outros sistemas divinos: proporção elevada de médiuns mulheres.

Lin Fu-chih (林富士), do Instituto de História e Filologia da Academia Sinica (中研院歷史語言研究所), aponta que o jitong de Taiwan é "a figura religiosa mais controversa". Na tradição dominada por médiuns homens, os "porta-vozes" de Jiutian Xuannu são frequentemente mulheres. Na possessão (降駕), elas não exibem a autoflagelação intensa de alguns médiuns homens (como o "ritual dos cinco tesouros" 操五寶), mas uma postura serena, autoritária, coerente com a imagem de Jiutian Xuannu como deusa da sabedoria.

Em muitos templos, o serviço de "consulta" (問事) a Jiutian Xuannu é muito procurado. Fiéis levam angústias amorosas, impasses profissionais, disputas familiares; através do médium, "conversam" com a deusa. Funcionalmente, assemelha-se a aconselhamento psicológico — só que a terapeuta exerce há quatro mil anos.


Quando a deusa vira meme

Em 2022, o YouTuber A-han (阿翰) criou um personagem cômico imitando a possessão de Jiutian Xuannu, viralizando na rede. "Jiutian Xuannu" virou gíria da hora. Mas outro personagem dele, "Yen Yueh-chiao" (閻月嬌, imitação de imigrante vietnamita), foi acusado pela Associação Vietnamita de Taiwan de racismo, gerando debate: onde está a linha entre comédia e ofensa a crenças populares e grupos imigrantes?

O cerne da polêmica não é Jiutian Xuannu em si, mas o que acontece quando símbolos de fé são arrancados do contexto e viram matéria de entretenimento: "não ter má intenção" equivale a "não causar dano"?

Tensão mais profunda: novos grupos espirituais usam o nome de Jiutian Xuannu para vender cursos caros de "mediunidade", "regressão a vidas passadas" — extensão legítima da fé ou exploração comercial sob manto religioso? Múltiplos templos reivindicando ser o "templo ancestral" (祖廟) legítimo? Esses atritos mostram que o culto a Jiutian Xuannu em Taiwan não é patrimônio cultural estático, mas fenômeno religioso vivo cujo direito de definição segue em disputa.


No verão de 2018, Hsu Chen-jung vestiu a beca e tirou a foto de formatura do doutorado. Orientador e integrantes da trupe estavam lá. Terminada a foto, trocou para roupa comum, voltou à Ta-tu-shan. Na porta do templo, o caminhão de equipamentos já esperava; os tambores da próxima apresentação já estavam carregados.

Ele levou 11 anos para entrar no salão acadêmico, levou 30 segundos para voltar à porta do templo. Diante da imagem de Jiutian Xuannu, os dois lugares na verdade são o mesmo lugar.


Referências

Sobre este artigo Este artigo foi elaborado de forma colaborativa pela comunidade, com auxílio de IA na redação e revisão.
Palavras-chave
Jiutian Xuannu Zhentou Tropa de Artes Folclóricas Jiutian Crenças populares Cultura de templos Hsu Chen-jung
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