O islã em Taiwan: dos ancestrais de sobrenome Kuo, de Quanzhou, à fé de 300 mil trabalhadores migrantes

Em 2025, a população muçulmana de Taiwan ultrapassou 300 mil pessoas, e as marcas do islã no país remontam a quatro séculos. Dos tabus nos ritos ancestrais das famílias Kuo de Lukang às grandes celebrações do fim do Ramadã no saguão de piso quadriculado em preto e branco da Estação Central de Taipé, Taiwan atravessa uma reconstrução religiosa que vai das “origens ancestrais ocultas” à transformação de uma terra estrangeira em lar.

Visão geral em 30 segundos: O islã em Taiwan não é uma cultura estrangeira introduzida de fora, mas uma memória ancestral profundamente enraizada na linhagem do país. Dos descendentes dos “Hui de sobrenome Ting”, de Quanzhou, que chegaram a Taiwan com Koxinga entre o fim da dinastia Ming e o início da Qing, aos 260 mil trabalhadores migrantes muçulmanos indonésios que hoje sustentam os setores taiwaneses de cuidados de longa duração e pesca, essa fé percorreu em Taiwan uma extraordinária trajetória: do desaparecimento pela assimilação ao florescimento da diversidade.

Em 1994, o pesquisador Chuang Ching-hui, de Quanzhou, na província de Fujian, chegou a Taisi, no condado de Yunlin. Para sua surpresa, descobriu que essa remota aldeia pesqueira, onde Ting era um dos sobrenomes predominantes, mantinha laços de sangue interrompidos havia duzentos anos com uma família muçulmana de Chendai, em Quanzhou.1 Não se tratava de um caso isolado. Em Peitou Kuocuo, bairro de Lukang, no condado de Changhua, os moradores veneram Kuo Tzu-i, mas observam o peculiar tabu de não oferecer carne de porco durante os ritos ancestrais.2 Esses descendentes dos Hui — muçulmanos de língua chinesa —, cujas origens foram soterradas pela história, e os trabalhadores migrantes indonésios que hoje fazem suas orações no saguão da Estação Central de Taipé compõem, juntos, o retrato mais autêntico do islã em Taiwan.

Os “Hui de sobrenome Ting” desaparecidos: códigos islâmicos ocultos nos ritos ancestrais

A primeira onda do islã chegou a Taiwan ainda no século XVII. Entre os militares e civis que vieram ao país com Koxinga, havia numerosos descendentes dos Hui de Quanzhou, sobretudo os “Kuo de Pai-ch’i” e os “Ting de Chendai”.3

Em sua maioria, os ancestrais dessas famílias eram mercadores árabes ou persas que haviam chegado a Quanzhou durante a dinastia Yuan. Devido aos conflitos de Ispah no fim dessa dinastia e às políticas xenófobas do início da dinastia Ming, eles foram obrigados a ocultar a identidade e a se mudar para o interior.4 Depois de chegarem a Taiwan, cercados pela dominante cultura han de Minnan, sua fé foi gradualmente “secando”.

📝 Nota curatorial: uma fé pode desaparecer, mas seus tabus permanecem como uma memória genética, preservada à mesa e nos altares domésticos.

Hoje, a maioria das famílias Kuo de Lukang e Ting de Taisi já não pratica o islã e até queima incenso e cultua os ancestrais, como fazem os han. Ainda assim, as marcas da história persistem:

  • Famílias Kuo de Lukang: alguns membros do clã não oferecem carne de porco durante os ritos ancestrais. Certas famílias preservam inclusive o preceito de “não comer carne de porco”, embora já desconheçam seu significado religioso.5
  • Famílias Ting de Taisi: conhecidas como os “Aladins de Taisi”, descendem de Ting Su, que migrou de Chendai, em Quanzhou, para Taiwan durante o reinado do imperador Ch’ien-lung. Sua genealogia registra explicitamente uma ascendência das Regiões Ocidentais.6

“Na turma de esportes havia 15 pessoas. Eu fazia parte do grupo de trás, e Chi-lin, do grupo da frente.”7 Essa busca por identidade e pertencimento também existe, sob outra forma, entre os descendentes dos Hui em Taiwan: ao investigarem suas raízes, eles redescobrem os vínculos que os unem às distantes Regiões Ocidentais.

A segunda e a terceira ondas: dos generais aos cuidadores

Em 1949, a transferência do governo nacionalista para Taiwan trouxe uma segunda onda de imigrantes muçulmanos. Esse grupo de cerca de 20 mil “muçulmanos de língua chinesa” era formado, em sua maioria, por militares, servidores públicos e professores; seu integrante mais conhecido foi Pai Chung-hsi, ministro da Defesa.3 Eles fundaram na rua Lishui, em Taipé, a primeira mesquita de Taiwan, transformando o islã de um “preceito familiar oculto” em uma “religião institucionalizada”.

No entanto, quem realmente tornou o islã “visível” nas ruas de Taiwan foi a terceira onda migratória, que começou a chegar em grande número após a década de 1990: os trabalhadores migrantes do Sudeste Asiático.

Categoria População estimada (2025) Principais origens Papel social
Muçulmanos estrangeiros Cerca de 260 mil Indonésia e Malásia Cuidadores domiciliares, pescadores e operários
Muçulmanos locais Cerca de 50 mil Descendentes dos migrantes de 1949 e novos convertidos Profissionais especializados, servidores públicos e empresários
Restaurantes com certificação halal 264 estabelecimentos Distribuídos por Taiwan Infraestrutura turística e cotidiana

Fonte dos dados: estatísticas do Ministério das Relações Exteriores e do Ministério do Interior (2025).89

O piso quadriculado da Estação Central de Taipé: um oásis espiritual para quem vive longe de casa

A cada Eid al-Fitr, celebração que marca o fim do Ramadã, o piso quadriculado em preto e branco do saguão da Estação Central de Taipé fica repleto de muçulmanos indonésios com roupas coloridas. A cena já provocou controvérsia, sendo descrita como uma “invasão da estação”, mas, para trabalhadores migrantes como Desin, esse é o único lugar em Taiwan que podem chamar de “lar”.10

“Para acolher melhor os trabalhadores migrantes, a Estação Central de Taipé acrescentou uma sala de oração muçulmana e placas de sinalização no primeiro subsolo, permitindo que os muçulmanos façam suas orações sem precisar se esconder discretamente em algum canto.”10 Essa disputa pelo espaço e a autonomia assim conquistada refletem a transformação da atitude da sociedade taiwanesa perante o islã.

📝 Nota curatorial: o progresso de uma cidade não se mede pelo número de arranha-céus, mas por sua capacidade de abrir espaço para um tapete de oração.

Os desafios, contudo, persistem. Em 2010, veio à tona o escândalo de empregadores que obrigavam trabalhadores domésticos muçulmanos indonésios a comer carne de porco, atraindo atenção internacional.11 Mesmo em 2025, o número de mesquitas em Taiwan continuava reduzido, e muitos cuidadores domiciliares, devido à natureza de seu trabalho, tinham dificuldade para comparecer à mesquita na sexta-feira, dia da oração comunitária do Jumu’ah.12

Conclusão: um crescente em Taiwan

De Quanzhou a Taisi, de Jacarta a Taipé, a história do islã em Taiwan é uma epopeia de “adaptação” e “perseverança”. No passado, os ancestrais de alguns taiwaneses ocultaram sua fé para sobreviver; hoje, trabalhadores migrantes se esforçam para fazer sua fé resplandecer longe de casa.

Quando vemos nas ruas uma cuidadora de hijab — o véu islâmico — levando uma pessoa idosa para passear, não estamos apenas diante da importação de mão de obra, mas da peça mais recente de um mosaico islâmico que vem sendo composto em Taiwan há quatrocentos anos. Os muçulmanos de Taiwan já não são apenas “descendentes dos Hui” ou “trabalhadores estrangeiros”: eles são um dos crescentes mais gentis e resilientes da diversidade cultural deste país.


Referências:

  1. História dos Hui de sobrenome Ting - Fundação Cultural e Educacional de Taisi — Consulte o conteúdo do link original para informações complementares
  2. Muitas pessoas de sobrenome Kuo em Lukang também pertencem aos Kuo de Pai-ch’i e descendem dos semu - Threads — Consulte o conteúdo do link original para informações complementares
  3. Conhecendo os muçulmanos de Taiwan: Chang Chung-fu, da Universidade Nacional Chengchi, investiga a trajetória da entrada do islã na sociedade chinesa - Humanidades · Ilha — Consulte o conteúdo do link original para informações complementares
  4. Salão ancestral do clã Ting de Chendai: integração entre Hui e han, felicidade e harmonia - Administração do Patrimônio Cultural da Província de Fujian — Consulte o conteúdo do link original para informações complementares
  5. Estudo sobre as limitações ao desenvolvimento do islã em Taiwan - Relatório de projeto do Ministério da Educação — Consulte o conteúdo do link original para informações complementares
  6. Os Hui de sobrenome Ting são descendentes de muçulmanos árabes que se estabeleceram em Chendai, Chinchiang, no fim da dinastia Yuan - Threads — Consulte o conteúdo do link original para informações complementares
  7. Citação original da entrevista de Lee Yang ao The Reporter for Kids — (Nota: o formato desta citação segue as normas do EDITORIAL.md)
  8. Taiwan tem 300 mil muçulmanos, mas ainda precisa melhorar a inclusão - Rede de Notícias da Universidade Shih Hsin — Consulte o conteúdo do link original para informações complementares
  9. Medidas de Taiwan para promover um turismo “amigável aos muçulmanos” - Dados estatísticos de 2025 — Consulte o conteúdo do link original para informações complementares
  10. O mais belo fim de semana da Estação Central de Taipé: trabalhadores migrantes celebram juntos - Portal de Empreendedorismo do Ministério de Assuntos Econômicos — Consulte o conteúdo do link original para informações complementares
  11. Trabalhadores domésticos estrangeiros são obrigados pelos empregadores a comer carne de porco; Conselho de Assuntos Trabalhistas pede respeito à liberdade religiosa dos trabalhadores estrangeiros - Comunicado do Ministério do Trabalho — Consulte o conteúdo do link original para informações complementares
  12. Como é ser um muçulmano indonésio em Taipé? Ações de infraestrutura para preservar fronteiras - Dissertação da Universidade Nacional de Taiwan — Dissertação da Universidade Nacional de Taiwan
Sobre este artigo Este artigo foi elaborado de forma colaborativa pela comunidade, com auxílio de IA na redação e revisão.
Palavras-chave
islã muçulmanos trabalhadores migrantes famílias Kuo de Lukang famílias Ting de Taisi história de Taiwan
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