Cultura funerária e visões sobre a morte em Taiwan

Dos choros das "filhas piedosas profissionais" ao enterro sob árvores no Jardim Yong'ai — os taiwaneses levaram cinquenta anos para passar do enterro em terra para a cremação, e mais dez anos para ir das torres de cinzas a uma única árvore.

Visão geral em 30 segundos: Em 2009, o Mestre Sheng Yen faleceu, deixando um testamento que dizia apenas: "sem anúncio de falecimento, sem túmulo, sem lápide". Suas cinzas foram plantadas sob uma árvore, sem nome. Naquele ano, a taxa de cremação em Taiwan já se aproximava de 90%, e em 2024 subiu para 98,7% — quase ninguém mais enterra em terra. Dos cortejos fúnebres com dança de poste em carros alegóricos eletrônicos, às famílias que silenciosamente espalham cinzas no Jardim Yong'ai — a forma como os taiwaneses enfrentam a morte está virando de cabeça para baixo na velocidade de uma geração.

Em 3 de fevereiro de 2009, o Mestre Sheng Yen faleceu em Taipé, aos 79 anos. Seu testamento era excepcionalmente breve: sem anúncio de falecimento, sem cerimônias budistas, sem túmulo, sem lápide, sem bandeiras, sem tablet ancestral1. As cinzas foram finalmente plantadas no solo do Parque de Vida Ecológica de Jinshan, com uma árvore plantada por cima, sem nome gravado. Um líder religioso que influenciou milhões de fiéis escolheu desaparecer como uma folha caída.

Ele disse em vida uma frase: "As cinzas não têm relação alguma com a espiritualidade da pessoa; são apenas o último vestígio de carbono."2

Na sociedade taiwanesa da época, essa frase foi quase um terremoto cultural.

Entrar na terra para ter paz: a obsessão pela terra

Na tradição han de Taiwan, "enterrar para ter paz" (入土為安) não é apenas um ditado, é fé. O falecido deve ser enterrado em um local com bom feng shui; a orientação do túmulo, a veia do dragão, a boca d'água determinam a ascensão ou queda dos descendentes. Um bom túmulo pode fazer a família prosperar; um mau pode atrair desgraças. Pelo menos é nisso que as pessoas acreditaram por centenas de anos3.

O funeral é um grande evento. Sacerdotes taoistas recitam sutras, mestres budistas cantam, casas de papel e servos viram cinzas em braseiros. Nos anos 1980, no interior de Taiwan, o cortejo fúnebre podia se estender por meia rua: à frente, uma banda de metais tocando música fúnebre; no meio, os enlutados carregando o caixão e chorando copiosamente; atrás, uma fileira de "carros alegóricos eletrônicos" decorados de forma extravagante — sobre eles, jovens mulheres vestidas de forma reveladora, cantando e dançando ao som ensurdecedor de músicas em taiwanês4.

💡 Você sabia?
As "filhas piedosas profissionais" (孝女白琴) são as choradeiras de aluguel nos funerais taiwaneses. Essas mulheres contratadas se ajoelham diante do caixão e choram alto, com microfones amplificando o som, às vezes misturando choro e canto por horas a fio. Essa profissão já foi noticiada pela BBC, vista pela mídia internacional como uma das culturas fúnebres mais singulares de Taiwan5. Hoje, as famílias que contratam filhas piedosas profissionais diminuíram drasticamente, mas no interior do centro-sul ainda se ouve ocasionalmente esse tipo de choro.

Há também o "cinco filhos choram no túmulo" (五子哭墓) — cinco homens adultos encenam os filhos do falecido, batendo no peito, jogando-se no chão, chorando convulsivamente diante da sepultura. A essência dessas encenações não é a tristeza, é a exibição: provar aos vizinhos que a família tem piedade filial, tem pompa, que o morto partiu com honra e dignidade.

📝 Nota do curador
A lógica do funeral tradicional taiwanês não é "como enfrentar a morte", mas "como mostrar aos vivos a sua atitude diante da morte". A festa é para os vivos verem, não para o morto ouvir. Entendido isso, compreende-se o quão radical foi a posterior revolução silenciosa.

O crepúsculo dos mestres de recolha de ossos

Após o enterro em terra, ainda há um procedimento: a recolha de ossos. Anos depois do sepultamento, a família contrata "mestres de recolha de ossos" (撿骨師) para abrir o caixão, retirar os ossos um a um, limpá-los, rearranjá-los dentro de uma urna e, em data auspiciosa, transferi-los para uma posição de feng shui melhor. Essa profissão existe há centenas de anos, a habilidade passa de pai para filho, de mestre para aprendiz; a posição dos 206 ossos de um esqueleto é conhecida de cor6.

Mas esse ofício está desaparecendo.

Nos anos 1970, o governo de Taiwan começou a promover a cremação, alegando saúde pública e falta de terra. No início, o avanço foi muito lento — a crença de "enterrar para ter paz" está enraizada, muitas famílias preferiam gastar fortunas comprando túmulos a cremar os parentes. Porém, meio século depois, os números falam por si: em 2014, a taxa nacional de cremação era 92,83%; em 2019, subiu para 98,7%7. O número de enterros em terra caiu de dezenas de milhares por ano para 5.752 em 2021.

"Cinquenta anos atrás, o mestre de recolha de ossos entrava em cada túmulo. Hoje, entram em projetos de história oral de museus."

O que virou de cabeça para baixo a visão de vida e morte de uma ilha? A resposta não é um fator único, mas a sobreposição de três forças: urbanização, transformação religiosa, impulso legal. Em Taipé, cada centímetro de terra vale ouro; o preço de um túmulo pode comprar um apartamento pequeno. Quando a terra vira artigo de luxo, a fé em "enterrar para ter paz" começa a tremer — não é que deixaram de crer, é que não têm mais como pagar.

Das torres de cinzas a uma árvore

Depois que a cremação substituiu o enterro em terra, as cinzas precisam de destino. As torres de cinzas (靈骨塔, columbários) viraram a nova forma de acomodação. Vagas públicas custam dez, vinte mil dólares taiwaneses; as privadas, de trinta mil a centenas de milhares. O andar, a orientação, o "feng shui" da vaga viraram nova fonte de ansiedade; certos columbários privados chegaram a ser especulados como investimento8. A taxa de ocupação dos columbários públicos de Taipé já ultrapassou 90%, beirando a saturação.

O problema do espaço para a morte não desapareceu com a cremação, apenas se deslocou da superfície para dentro dos edifícios.

Em 2001, o Ministério do Interior começou a promover o "enterro ecológico natural". Em 2002, a promulgação da "Lei de Gestão Funerária" incluiu pela primeira vez o enterro sob árvores, enterro com flores, enterro no mar na lei, e criou o sistema de licença de cerimonialistas, tentando profissionalizar uma indústria longamente vista como "negócio de máfia"9.

A mudança foi extremamente lenta no começo. Em 2006, em toda Taiwan, apenas duzentas e poucas pessoas escolheram enterro ecológico.

Mas a virada veio mais rápido que o esperado. Em 2007, Taipé inaugurou o "Jardim Yong'ai" (詠愛園) para enterro sob árvores — 1,2 hectare de área verde com 13 espécies de árvores; as cinzas são moídas em pó e enterradas em covas junto às raízes, sem lápide, sem nome; após dez anos, as cinzas se decompõem completamente, e a mesma vaga pode ser reutilizada10. O enterro ecológico do Mestre Sheng Yen em 2009 trouxe esse conceito para o grande público.

Daí em diante, os números começaram a subir: em 2017, os casos de enterro ecológico em Taiwan chegaram a 9.135, superando pela primeira vez os 7.779 enterros em terra — um ponto de cruzamento histórico11. Em 2021, o enterro ecológico ultrapassou 18 mil casos. Até o fim de 2023, o acumulado nacional superava 140 mil pessoas que escolheram o enterro ecológico.

📝 Nota do curador
A velocidade de promoção do enterro ecológico em Taiwan está na vanguarda da Ásia. O marco de 2017 — "enterro ecológico supera enterro em terra" — passou despercebido, mas significa que os dispostos a "desaparecer" já superam os que insistem em uma lápide.

Em Taipé, o enterro sob árvores representa 57% dos enterros ecológicos, o enterro com flores 41%, o enterro no mar apenas 2%. A baixa proporção do enterro no mar não surpreende: mesmo aceitando o conceito de "retorno à natureza", a maioria das famílias taiwanesas ainda quer um lugar para "ir ver", mesmo que lá haja apenas uma árvore.

O preço e a dignidade da morte

⚠️ Ponto de controvérsia
O enterro ecológico em Taipé é totalmente gratuito; alguns condados e cidades oferecem até dez ou vinte mil dólares de incentivo. Críticos apontam que, por trás da gratuidade, o governo usa incentivos econômicos para mudar costumes culturais; para famílias economicamente vulneráveis, "escolher o enterro ecológico" pode não ser totalmente uma mudança de valores, mas o resultado de não poder arcar com o funeral tradicional.

Um funeral tradicional em Taiwan custa de dezenas de milhares a milhões de dólares taiwaneses. Empresas funerárias, rituais, arranjos florais, locais, carros fúnebres, vagas em columbários — cada elo é comércio. Estima-se que o setor funerário mova mais de 20 bilhões de dólares taiwaneses por ano. A Lei de Gestão Funerária de 2002 introduziu a licença de cerimonialistas, exigindo que empresas de certo porte contratem profissionais qualificados, tentando melhorar uma indústria que por muito tempo careceu de regulação12.

Mas a reforma não fica só no nível institucional. O professor Yang Kuo-chu, do Departamento de Estudos sobre Vida e Morte da Universidade Nanhua, observa que a atitude da geração jovem diante dos funerais está mudando: "Não é falta de piedade filial; é que a definição de 'piedade' mudou."13 A geração anterior achava que pompa era piedade; esta geração tende mais a "respeitar a vontade do falecido em vida". A partir de 2026, Taipé, Nova Taipé, Taoyuan e Taichung — quatro municípios especiais — abriram o "registro antecipado de vontade de enterro ecológico", permitindo que os cidadãos decidam em vida seu destino pós-morte14.

É uma sutil transferência de poder: o direito de decidir sobre a morte está passando da família para o indivíduo.

A silenciosa evolução do Festival Qingming

Todo início de abril, milhões de taiwaneses voltam aos cemitérios e columbários, queimam incenso, oferecem flores, limpam a grama. O Festival Qingming é o maior momento coletivo de enfrentamento da morte nesta ilha.

Mas o próprio Festival Qingming está mudando. Em 2017, incêndios provocados pela limpeza de túmulos somaram 1.936 casos em toda Taiwan; em 2022, caíram para 997 — cada vez menos gente queima papel-moeda, cada vez mais usam flores frescas e frutas para prestar homenagem15. Alguns condados e cidades promovem plataformas de "homenagem online", para que filhos que não podem voltar à terra natal acendam um incenso virtual diante da tela.

Dos carros alegóricos eletrônicos com música ensurdecedora, às famílias que silenciosamente espalham cinzas no Jardim Yong'ai e viram as costas — a relação dos taiwaneses com a morte está indo de "exibir para os vivos" para "deixar os mortos partirem em paz".

O presidente da Sociedade de Estudos sobre Vida e Morte da República da China (Taiwan), Lee Chi-ping, apontou quatro obstáculos à promoção do enterro ecológico: a preferência tradicional confuciana pelo enterro em terra, a necessidade psicológica das famílias de "ter um lugar para ir", o fato de o funeral ser decisão da família e não do indivíduo, e os interesses comerciais da indústria funerária16. Essas quatro paredes estão sendo furadas uma a uma, mas em velocidades diferentes.

"O Mestre Sheng Yen disse que as cinzas são apenas carbono. Mas para muitas famílias taiwanesas, aquele pequeno pote de cinzas é a última forma de abraçar aquela pessoa."

No fim de 2023, o acumulado de enterros ecológicos em Taiwan superava 140 mil pessoas. 140 mil nomes desapareceram na terra, no mar, nos canteiros. Escolheram não deixar nenhum rastro — numa cultura que gastou centenas de anos erguendo lápides, esta talvez seja a revolução mais silenciosa.

Leitura complementar

Referências

  1. Rede Global Dharma Drum: Testamento do Mestre Sheng Yen — O Mestre Sheng Yen faleceu em 2009; seu testamento determinava claramente: sem anúncio de falecimento, sem túmulo, sem lápide; cinzas plantadas no Parque de Vida Ecológica de Jinshan.
  2. Taiwan Panorama: Enterros Verdes Ganham Força em Taiwan — Reportagem especial da Taiwan Panorama em inglês, cita a visão do Mestre Sheng Yen sobre as cinzas: "cremated ashes are simply the last remaining bit of carbon".
  3. Wikipédia: Funerais em Taiwan — Detalha a evolução dos costumes funerários han de Taiwan, abrangendo noções de feng shui, tradição de recolha de ossos, rituais de guiamento de almas, etc.
  4. The News Lens: As mudanças e permanências da indústria funerária na era — Da algazarra de gongos e tambores, forças obscuras à institucionalização pós-legislação, traça a transformação de meio século da indústria funerária taiwanesa.
  5. Gold Kirin Life: Análise cultural das filhas piedosas profissionais — As filhas piedosas profissionais como choradeiras profissionais chegaram à BBC; analisa o contexto histórico e o declínio dessa profissão funerária única de Taiwan.
  6. Liberty Times: Das filhas piedosas profissionais e cinco filhos choram no túmulo aos atores de choro fúnebre, testemunhando a transformação da cultura funerária — Reporta a transformação das encenações funerárias tradicionais, da choradeira ao ator de luto, registrando a memória funerária de uma geração.
  7. Boletim Estatístico do Interior: Estatísticas de Gestão Funerária de 2020 — Estatísticas oficiais do Ministério do Interior; taxa de cremação nacional de 98,7% em 2019; enterros em terra apenas 6.585 pessoas.
  8. Jingpin Rites: Preços de vagas em torres de cinzas e falácias de investimento desvendadas — Analisa diferenças de preço entre columbários públicos (15-35 mil) e privados (30 mil a centenas de milhares), e o fenômeno de vagas especuladas como investimento.
  9. Banco de Dados de Leis Nacionais: Lei de Gestão Funerária — Promulgada em 2002, primeira lei a regular enterro ecológico natural, licença de cerimonialistas e gestão de instalações funerárias.
  10. Taiwan Panorama: Enterros Verdes Ganham Força em Taiwan — Detalha a inauguração do Jardim Yong'ai em 2007, 1,2 hectare, 6.000 vagas, mecanismo de reutilização decenal.
  11. PTS News: Casos de enterro ecológico superam enterro em terra por 5 anos consecutivos — que mudança qualitativa ocorreu nos costumes funerários de Taiwan — Análise gráfica dos dados anuais de enterro ecológico; 2017 primeira vez superando enterro em terra como marco histórico; 2021 ultrapassando 18 mil casos.
  12. The News Lens: As mudanças e permanências da indústria funerária na era — Registra o processo de introdução da licença de cerimonialistas pela Lei de Gestão Funerária e a profissionalização do setor.
  13. PTS News: Casos de enterro ecológico superam enterro em terra por 5 anos consecutivos — Professor Yang Kuo-chu, do Departamento de Estudos sobre Vida e Morte da Universidade Nanhua, entrevistado, analisa a mudança de atitude da geração jovem diante dos funerais.
  14. Orange Generation: Registro antecipado de enterro ecológico disponível em 4 municípios — Compilação de 2026: Taipé, Nova Taipé, Taoyuan, Taichung abrem registro antecipado de vontade de enterro ecológico.
  15. PTS News: Casos de enterro ecológico superam enterro em terra por 5 anos consecutivos — Estatísticas do Corpo de Bombeiros sobre incêndios na limpeza de túmulos; 1.936 casos em 2017 caíram para 997 em 2022.
  16. Taiwan Panorama: Enterros Verdes Ganham Força em Taiwan — Presidente Lee Chi-ping, da Sociedade de Estudos sobre Vida e Morte da República da China (Taiwan), analisa os quatro grandes obstáculos à promoção do enterro ecológico.
Sobre este artigo Este artigo foi elaborado de forma colaborativa pela comunidade, com auxílio de IA na redação e revisão.
Palavras-chave
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