Visão geral em 30 s: A história do Grupo Want Want é uma das transformações mais radicais da história empresarial de Taiwan. Nasceu de uma fábrica de conservas em Yilan, alavancou-se com a parceria tecnológica japonesa para criar arrozitos e, nos anos 1980, conquistou a ilha e o mercado chinês. Mas quando o fundador Tsai Yen-ming comprou, em nome pessoal, o China Times, a CTV e a CTi em 2008, o Want Want deixou de ser apenas uma marca de alimentos para se tornar o epicentro das controvérsias sobre política cross-strait, liberdade de imprensa e monopólio midiático. Este artigo examina como a empresa passou de "snack para crianças" a "gigante que influencia a democracia".
Em 1976, Tsai Yen-ming, filho de família abastada da Dihua Street em Taipé, assumiu aos 19 anos o cargo de gerente-geral da "Yilan Foods", fundada pelo pai. Na época, ele não entendia nada de balanços financeiros e fechou o primeiro ano com prejuízo de 100 milhões de novos dólares taiwaneses, sendo ridicularizado pelo meio empresarial como "filho pródigo"1. Para limpar o nome, viajou várias vezes ao Japão para visitar a grande fabricante de arrozitos "Iwatsuka Confectionery", esperando dois anos na porta até comover o fundador Masao Meguro e obter a licença tecnológica crucial2. Em 1983, a marca "Want Want" nasceu oficialmente; aquele garotinho de cabeça erguida e olhos revirados, o "Want Want Kid", tornou-se em seguida uma memória coletiva partilhada dos dois lados do estreito.
Do filho pródigo ao rei dos arrozitos cross-strait
Tsai Yen-ming credita o sucesso do Want Want à "proteção dos deuses" e à "ousadia". Em 1992, vislumbrou a oportunidade da reforma e abertura na China continental e instalou a primeira fábrica em Changsha, Hunan. Adotou a estratégia de "distribuir amostras grátis", oferecendo Want Want Senbei a milhões de escolares, abrindo mercado rapidamente. No fim dos anos 1990, o Want Want já era o maior fabricante de arrozitos da China, e a fortuna de Tsai disparou, colocando-o várias vezes no topo da lista de mais ricos de Taiwan.
📝 Nota do curador: A ascensão do Want Want é menos um mito de gestão do que o retrato fiel da primeira geração de taishang (empresários taiwaneses na China) que soube capturar o "dividendo chinês" com precisão cirúrgica.
Contudo, esse modelo de negócios altamente dependente do mercado chinês plantou as sementes das futuras polêmicas políticas. O sucesso do Want Want na China criou laços profundos com as autoridades locais. Em 2009, a CommonWealth Magazine revelou que Tsai Yen-ming, antes de comprar o China Times Group, reunira-se com Wang Yi, então diretor do Gabinete de Assuntos de Taiwan (國台辦), e a reportagem, intitulada "Relatório ao diretor, compramos o China Times", despertou em Taiwan um temor coletivo de infiltração da "mídia vermelha"3.
2008: a aquisição que redesenhou o mapa midiático de Taiwan
Em 4 de novembro de 2008, Tsai Yen-ming, em nome pessoal, desembolsou 20,4 bilhões de novos dólares taiwaneses para adquirir o China Times Group, então em crise financeira. A operação venceu a concorrência de Jimmy Lai, do Next Media4. Em audiência pública, Tsai confessou que antes era feliz no ramo alimentício e que comprou a mídia para "travar uma batalha de defesa da honra", não querendo que o vissem apenas como um taishang que só sabe ganhar dinheiro5.
O resultado, porém, foi o oposto: após a criação do Want Want China Times Media Group, a linha editorial alinhou-se estreitamente às posições pessoais de Tsai. Em 2012, em entrevista ao Washington Post, Tsai declarou sobre o "incidente de 4 de junho em Tiananmen": "Sei que não é verdade que tanta gente morreu", provocando enorme repercussão6. Na sequência, o grupo foi acusado pela academia e pela sociedade civil de formar um "monstro midiático" com a tentativa de fusão com a China Network Systems, detonando o "movimento contra o monopólio da mídia", marco decisivo da história democrática de Taiwan.
📝 Nota do curador: Quando um vendedor de senbei passa a vender opiniões, os taiwaneses descobrem que por trás do sabor doce do snack pode esconder-se um amargo capaz de afetar o funcionamento da democracia.
Cartas notariais e morte por mil cortes: a privatização do poder midiático
O episódio mais controverso do Want Want foi transformar seus veículos em instrumento de ataque pessoal. Em 2009, o grupo enviou cartas notariais a acadêmicos e jornalistas que criticavam a fusão — como Kuan Chung-hsiang, Cheng Hsiu-ling e Lin Hsing-fei —, precedente raríssimo na história do jornalismo taiwanês4. Além disso, a então legisladora Yeh Yi-chin, por ter exigido em plenário que Tsai apresentasse a procuração da compra, foi alvo de mais de 30 reportagens dirigidas em três dias consecutivos pela mídia do grupo; Yeh descreveu o cerco como uma "morte por mil cortes" (凌遲)7.
Essa lógica de "quem me segue prospera, quem me opõe perece" levou à explosão, em 2012, do movimento "Recusar o China Times". Dezenas de milhares de estudantes e cidadãos foram às ruas protestar contra o monopólio midiático e a censura. Em audiência, Tsai disse-se um "cão caído na água", vítima de "inquérito ideológico", mas a sociedade viu um detentor de jornal e TV tentando redefinir o profissionalismo jornalístico de Taiwan5.
Após a virada: o lugar do Want Want no Taiwan contemporâneo
Hoje, o Want Want continua sendo um gigante alimentício transnacional, mas sua imagem social em Taiwan já não tem nada a ver com a marca de snacks inocente dos anos 1980. Em 2020, a CTi News teve a renovação de licença negada pela NCC por violações repetidas e falha de controle interno, saindo da TV a cabo — visto como um desfecho tardio do movimento contra o monopólio.
Nos últimos anos, Tsai lançou o canal pessoal "Want Want Grandpa Tells Stories" (旺伯講古), tentando reconstruir a imagem própria e da empresa através de narrativas. Seu filho mais novo, Tsai Wang-chia, ganhou atenção de jovens nas redes sociais com uma postura bem-humorada e "gente como a gente"; essa estratégia de RP "despolitizada" busca novo ponto de apoio numa sociedade taiwanesa profundamente fraturada.
📝 Nota do curador: Continuamos comendo Want Want Senbei, mas a cada mordida pode surgir não só o gosto da infância, mas também a reflexão sobre a estrutura de poder por trás daquele garotinho de olhos revirados.
Referências
- Sabia? Aos 19 anos Tsai Yen-ming assumiu o negócio da família e, por não ler balanços, perdeu 100 milhões de TWD no primeiro ano — Post público no Facebook↩
- A lendária trajetória empreendedora de Tsai Yen-ming do Want Want: da China de volta a Taiwan — Ver conteúdo suplementar no link original↩
- "Relatório ao diretor, compramos o China Times" — Ver conteúdo suplementar no link original↩
- Caso da fusão Want Want–China Times–CTi–CTV — Verbete da Wikipédia↩2
- Tsai Yen-ming: compareci para aceitar o "inquérito ideológico" — Reportagem do Liberty Times↩2
- O magnata da mídia de Taiwan e seu "inquérito ideológico" — Reportagem da BBC News Chinese↩
- Lucro acima de tudo: autocensura do Grupo Want Want — Ver conteúdo suplementar no link original↩