Empresas de Taiwan: MediaTek

Empresa outrora ridicularizada como "rei dos celulares piratas", hoje tem participação no mercado de chips para celulares 1,5 vez maior que a da Qualcomm

Visão geral em 30 segundos

Tsai Ming-kai fundou a MediaTek em 1997 levando uma pequena equipe desmembrada da UMC, começando com chips para CD-ROM. Em 2004 entrou no mercado de celulares, alimentando todo o ecossistema de shanzhai (山寨, "piratas/clones") de Shenzhen com "soluções turn-key" — o rótulo de "rei dos celulares piratas" nunca mais saiu. Mas em 2024, a participação global da MediaTek em chips para celulares atingiu 39%, quase 1,5 vez a da velha rival Qualcomm (25,7%). Receita anual superou 19 bilhões de dólares, com Apple, Google, NVIDIA na fila para fechar parcerias. Essa empresa que se dizia "só saber fazer produto barato" é hoje a quinta maior empresa de design de IC do mundo.

Um fã de boxe e seu império de IC

Quando estudava na Escola Secundária de Kaohsiung, Tsai Ming-kai apaixonou-se por lutas de boxe amador. Tirou dali uma lição: no ringue, poucos conseguem reinar consecutivamente, porque basta parar de evoluir para o próximo desafiante derrubar você. Transformou essa observação em filosofia de gestão, batizada de teoria do "campeão de uma geração": a indústria de design de IC é sempre a onda de trás empurrando a da frente; ter uma única linha de produto é beco sem saída.

(Extraído de entrevista a ex-alunos da Universidade Tsing Hua e TechNews)

Em 1983, Robert Tsao (曹興誠) recrutou Tsai Ming-kai, então com 33 anos, do ITRI (工研院) para a UMC, para liderar o grupo de multimídia. Em 1997, com a mudança estratégica da UMC, o departamento de design de IC foi desmembrado e tornado independente; Tsai Ming-kai liderou a equipe que fundou a MediaTek. A empresa escolheu o nome em inglês "MediaTek": tecnologia de mídia, porque o produto inicial eram chips para CD-ROM e DVD players. Ninguém imaginava que essa pequena empresa de Hsinchu desafiaria a Qualcomm vinte anos depois.

📝 A teoria do "campeão de uma geração" explica por que a MediaTek vive trocando de pista: CD-ROM → celular → 5G → AI → ASIC. Não é por inconstância; é porque Tsai Ming-kai acredita que ficar parado é esperar a morte.

As duas faces do rei dos celulares piratas

Em 2004, Tsai Ming-kai decidiu cruzar dos chips de disco óptico para o mercado de celulares. Designou seu braço-direito Hsu Chih-chiang (徐至強) para bater às portas da Nokia e da Motorola. Hsu jogou um balde de água fria: "Se não tivermos tecnologia única e formos a única opção, esses grandes players nem nos recebem, e não há margem." (Fonte: reportagem de capa da Mirror Media (鏡週刊) 2025)

Tsai ouviu. Decidiu não insistir nas grandes marcas e entrou pelo mercado de shanzhai (山寨, celulares piratas/clones) de Shenzhen, na China. Os chips 2.5G da MediaTek adotaram o modelo "turn-key" — processador, controlador de memória, componentes de RF, software, tudo integrado numa única plataforma; as pequenas fábricas de Shenzhen recebiam o chip e já podiam montar o celular, embarcando em poucos meses.

Essa estratégia fez explodir a indústria de celulares shanzhai da China. A participação da MediaTek chegou a 40%. Mas o rótulo de "rei dos celulares piratas" veio junto. Um veterano da MediaTek lembra: "Celular shanzhai afinal é imitação; ganha-se dinheiro, mas a reputação não é boa; o presidente Tsai também achava que o título de 'rei do shanzhai' não era muito honroso." (Fonte: Mirror Media (鏡週刊))

📝 Aqui está o paradoxo mais interessante da história da MediaTek: o modelo de negócio que lhes deu o primeiro pote de ouro é exatamente o rótulo que teriam de suar para descartar depois. O sucesso como rei do shanzhai foi, ao mesmo tempo, ponto de partida e maldição.

Queda ao fundo do poço: participação de 11%

Em 2007, o iPhone estreou e a era dos smartphones chegou; o shanzhai entrou em declínio. A MediaTek, tecnicamente mais fraca que a Qualcomm, via seus chips topo de linha sempre um passo atrás — 3G atrasou, 4G atrasou, benchmarks de desempenho perdiam. A Qualcomm construiu fosso com seu modelo de licenciamento de patentes; clientes de marca foram sendo arrancados um a um.

No pior momento, a participação da MediaTek em chips para celulares caiu a 11%.

Tsai Ming-kai tomou duas decisões. Primeira: não enfrentar a Qualcomm de frente no alto de gama, e sim fazer "tecnologia descer a serra" — enfiar funções topo de gama em chips de gama média a custo menor. A série Helio, lançada em 2014, permitiu que celulares de preço médio rodassem processadores de oito núcleos; Xiaomi, Meizu, OPPO adotaram em massa. Segunda: em 2017 trouxe Rick Tsai (蔡力行), ex-CEO da TSMC, como co-CEO, valendo-se de sua rede de contatos em grandes clientes internacionais e experiência em gestão de processos de fabricação.

Números-chave

Indicador Dado
Receita 2024 16,52 bilhões USD (YoY +19%)
Receita TTM (2025) 19,1 bilhões USD
Participação global em chips p/ celular 39% (Qualcomm 25,7%)
Ranking global design de IC 5º (TrendForce, 2024)
Investimento em P&D 6 anos Superior a NT$ 500 bilhões
Proporção de mestres/doutores 81,8%

Fontes: CompaniesMarketCap, Relatório TrendForce 2025, Mirror Media (鏡週刊)

Contra-ataque Dimensity: de perseguidor a líder

Em 2020, a MediaTek lançou a série Dimensity (天璣) de chips 5G. Desta vez não foi mais comer poeira atrás da Qualcomm — o Dimensity 1000 foi um dos primeiros SoCs 5G integrados da indústria, com benchmarks batendo de frente com o topo de linha da Qualcomm. No terceiro trimestre do mesmo ano, a participação da MediaTek em chips para celulares superou a da Qualcomm, retomando a liderança.

O Dimensity 9400, lançado no fim de 2024, foi o golpe decisivo. Fabricado no processo de 3 nm da TSMC, com grande salto de desempenho em AI, as marcas chinesas de primeira linha disputaram o chip — volume de chips topo de linha disparou 70%. Dados da Counterpoint Research mostram que a MediaTek abocanhou 39% do mercado global de processadores para smartphones, enquanto a Qualcomm caiu a 25,7%. Vendas de chips topo de linha cresceram 350% de 2022 a 2025 (Techsponential).

As sanções dos EUA à Huawei, que cortaram seu abastecimento de chips próprios, acabaram empurrando a MediaTek — as marcas chinesas de celular não tiveram alternativa senão depender ainda mais desta empresa taiwanesa que consegue acessar os processos avançados da TSMC.

Mordendo a maçã: oito anos afiando a lâmina

Tsai Ming-kai não se contentava em ser fornecedor só de clientes chineses. Há oito anos, criou uma equipe dedicada, liderada pelo vice-presidente Hsu Hao-chun (許皓鈞), com um único alvo: entrar na cadeia de suprimentos da Apple.

Em dezembro de 2024, a Bloomberg vazou que a nova geração do Apple Watch adotaria modem da MediaTek, substituindo o da Intel (Bloomberg / TechNode). Três dias depois, relatório da Morgan Stanley citou nominalmente a MediaTek como vencedora do pedido de chips customizados TPU do Google. Some-se a isso o anúncio no Computex 2024, com Jensen Huang pessoalmente no palco selando a parceria NVIDIA × MediaTek para chips de AI PC — das quatro maiores empresas de tecnologia por valor de mercado global (Apple, Google, NVIDIA, Samsung), a MediaTek fechou com três de uma vez.

Fontes ouvidas pela Mirror Media contaram: "O presidente Tsai anda de muito bom humor ultimamente, porque o projeto do Apple Watch levou oito anos e finalmente deu fruto."

📝 A lógica da entrada da MediaTek na Apple espelha a de quando entrou no mercado shanzhai — não foi de peito aberto disputar o chip topo de linha do iPhone (território da Qualcomm), mas entrou pela porta lateral do Apple Watch. Primeiro deixa a Apple acostumar com seu chip, depois conversa o próximo passo. A paciência de Tsai Ming-kai: oito anos de prova.

Corda bamba geopolítica

O maior risco da MediaTek está escondido na sua maior força: mais de metade da receita vem de clientes chineses. A guerra tecnológica EUA-China segue escalando; a MediaTek equilibra-se na corda — de um lado o maior mercado, do outro a fonte de tecnologia crítica (ferramentas EDA dos EUA, processos avançados da TSMC).

A estratégia de Rick Tsai é "não botar todos os ovos na mesma cesta": expandir agressivamente clientes não chineses (Samsung, Apple, Google), ao mesmo tempo em que amplia investimentos na América do Norte. Mas as variáveis geopolíticas não são controláveis pela empresa. Tarifas do Trump 2.0, "desamericanização" tácita da China, tensão no Estreito de Taiwan — qualquer uma pode mudar as regras do jogo.

Analistas da Morgan Stanley veem com otimismo: "A MediaTek é das poucas empresas taiwanesas de tecnologia que lucram dos dois lados. Marcas chinesas precisam dela para acessar capacidade da TSMC; grandes empresas dos EUA precisam dela para baixar custos." (Mirror Media (鏡週刊) 2025)

Não é só celular: a próxima luta

A teoria do "campeão de uma geração" obriga a MediaTek a buscar sempre o próximo ringue. As apostas atuais concentram-se em três direções:

AI na borda (edge AI) — Desde o Helio P90 de 2018, a MediaTek já embutia unidade dedicada de processamento de AI (APU) nos chips. Quando a AI no dispositivo virou padrão, esse investimento precoce começou a render. A capacidade de AI generativa no dispositivo do Dimensity 9400 foi motivo-chave da corrida das marcas chinesas.

ASICs customizados — TPU do Google, aceleradores de AI da NVIDIA; os gigantes da nuvem querem cada vez mais desenhar seus próprios chips. A MediaTek entrou no serviço de design de ASIC; embora chegue depois de Broadcom e Marvell, controle de custo e velocidade de execução são superiores. Relatório recente da TrendForce aponta que o mercado especula que a MediaTek já ganhou os pedidos do Google TPU v7e e v8e (TrendForce, 2026/03).

Wi-Fi e tecnologias de conexão — A MediaTek é a maior fornecedora mundial de chips Wi-Fi, de roteadores domésticos a equipamentos empresariais. Na era Wi-Fi 7, essa vantagem só aumenta. Quando todo dispositivo precisa se conectar, o chip de conexão é o bilhete de entrada.

Tsai Ming-kai completa 75 anos este ano. Levou a MediaTek do CD-ROM ao celular, do shanzhai ao topo de linha, da China à Apple. Nos últimos seis anos injetou NT$ 500 bilhões em P&D, formou um exército de pesquisa com 81,8% de mestres e doutores. Sua teoria do "campeão de uma geração" fala dos outros — mas no fim ele mesmo é o boxeador que se recusa a ser nocauteado.

No início de 2025, Tsai Ming-kai entrou na lista de clientes do processo de 2 nm da TSMC. Ao lado dele estavam Apple, NVIDIA, AMD, Qualcomm. Vinte e oito anos depois, aquela pequena empresa desmembrada da UMC já está no mesmo ringue.


Leitura complementar


Referências

  1. Reportagem de capa da Mirror Media (鏡週刊): MediaTek domina chips globais para celular, Tsai Ming-kai marcha aos EUA morder a maçã (2025/01, reportagem original)
  2. TrendForce: Ranking de receita 2024 das 10 maiores empresas globais de design de IC (2025/03, pesquisa industrial original)
  3. TrendForce: CSPs aceleram impulso em ASIC, MediaTek se beneficia (2026/03, relatório industrial original)
  4. CompaniesMarketCap: Receita da MediaTek (2026/02, dados financeiros)
  5. TechNode: MediaTek bate Intel e fornecerá chips de modem para Apple Watch (2024/12, em inglês)
  6. Techsponential: Análise profunda do MediaTek Dimensity 9500 (2025/09, análise industrial em inglês)
  7. Entrevista a ex-alunos da Universidade Tsing Hua: Tsai Ming-kai (instituição acadêmica original)
  8. TechNews: Tsai Ming-kai, o "campeão de uma geração" do design de IC (secundário)
  9. CTWANT: MediaTek choca o ovo de ouro (2023/07, secundário)
  10. PitchBook: Perfil da empresa MediaTek (2026/02, financeiro em inglês)
Sobre este artigo Este artigo foi elaborado de forma colaborativa pela comunidade, com auxílio de IA na redação e revisão.
Palavras-chave
Economia Empresas Semicondutores Design de Chips Design de IC MediaTek
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