A evolução do mandarim taiwanês — quatrocentos anos de estratigrafia linguística

Quantas camadas de história cabem dentro de uma marmita? Acompanhe a viagem dessa palavra e explore a língua que cresceu naturalmente nesta ilha ao longo de quatrocentos anos

Visão geral em 30 segundos: Por que o mandarim falado pelos taiwaneses tem essa forma? Não é resultado de um planejamento de política linguística, mas uma estratigrafia da língua depositada naturalmente por quatrocentos anos de vida na ilha. Dos topônimos deixados pelos holandeses, à infiltração de cinquenta anos dos empréstimos do japonês, à divergência vocabular de 1949, até o cabo de guerra linguístico da era da internet — cada camada é o rastro de uma vida real, não uma posição política.

Em 1895, no primeiro ano em que o Japão tomou posse de Taiwan, as escolas na cidade de Taipé começaram a ensinar uma nova disciplina: japonês. As crianças aprendiam vocabulário novo, palavra por palavra, e o modo de pensar japonês foi se encaixando na estrutura óssea do hokkien taiwanês. Uma dessas palavras era "弁当" (bentō).

Cinquenta anos depois, em 1945, essas crianças já eram adultas, viraram avós. Chamavam a caixa que guardava a comida de "biàndāng" (便當), tão naturalmente quanto chamar o pai de "pai". Naquele mesmo ano, chegou à ilha um grupo de pessoas que falava um mandarim diferente, vindas do continente. Elas chamavam a mesma coisa de "héfàn" (盒飯). Dois grupos, a mesma ilha, a mesma comida, dois nomes.

A história do mandarim taiwanês começa justamente nessa fresta.

A metáfora da geologia

Os linguistas gostam de usar "camadas geológicas" para descrever a história de uma língua. Assim como um geólogo lê nas rochas uma história de bilhões de anos, ao ouvir alguém falar também é possível sentir séculos de sedimentação cultural.

A estratigrafia linguística desta ilha chamada Taiwan tem pelo menos cinco camadas.

A camada mais profunda é a das línguas austronésias. Antes da grande migração han, Taiwan era habitada por povos indígenas falantes de línguas da família austronésia. O legado linguístico que deixaram para esta ilha está sobretudo escondido nos topônimos. O próprio nome "Taiwan" vem do nome de uma aldeia indígena; o antigo nome de Kaohsiung, "Takao" (打狗), é uma transliteração de uma língua indígena registrada em documentos holandeses do século XVII. Essa camada de língua está hoje desaparecendo rapidamente. A maioria das línguas dos povos indígenas de Taiwan já foi classificada pela UNESCO como línguas em risco de extinção, e algumas delas têm menos de cem falantes nativos. 台灣原住民語言復振運動

A segunda camada é a dos imigrantes hokkien e hakka. A partir do século XVII, grandes levas de imigrantes vindos de Fujian e Guangdong atravessaram o mar rumo a Taiwan, trazendo consigo o hokkien taiwanês (台語) e o hakka. Essas duas línguas não foram apenas dialetos transplantados; em quatrocentos anos de vida na ilha, fundiram-se com tudo ao redor e desenvolveram uma entonação e um vocabulário próprios de Taiwan. Hoje, quando os taiwaneses dizem "a-sà-lih" (阿莎力, direto e sem rodeios), "kó͘-chá" (古早, antigamente) ou "thàu-chá" (透早, de manhã bem cedo), são vestígios cotidianos de como o hokkien taiwanês se infiltrou no mandarim. 客家文化與語言

A terceira camada é a do japonês — também a mais espessa e mais característica de todo o mandarim taiwanês.

Cinquenta anos de infiltração linguística

De 1895 a 1945, o Japão governou Taiwan por cinquenta anos. O legado linguístico deixado por esses cinquenta anos é muito mais duradouro do que qualquer impacto de política linguística planejada.

O linguista Yang Yun-ping (楊雲萍) deixou uma frase repetidamente citada por gerações posteriores: "A maior conquista do domínio japonês em Taiwan foi fazer com que muitas crianças e jovens esquecessem sua 'língua materna'." Essa frase fala da perda do hokkien taiwanês sob a repressão do período japonês, mas, por outro ângulo, também revela o quanto o japonês penetrou fundo na vida de uma geração inteira.

O japonês que essas pessoas acabaram aprendendo não era aquela fluência de pensar em japonês, de sonhar em japonês. O que aprenderam foi uma substituição em camadas do vocabulário cotidiano: a caixa que guarda comida chama-se "biàndāng" (便當, do japonês 弁当, bentō); a tia chama-se "ōbāsang" (歐巴桑, do japonês おばさん); o motorista chama-se "ūn-chiang" (運將, do japonês 運転手); a placa chama-se "khan-pán" (看板, do japonês 看板); e um jeito franco e direto de ser chama-se "a-sà-lih" (阿莎力, do japonês あっさり).

A pronúncia dessas palavras já foi remodelada pela raiz da língua do hokkien taiwanês. "Ūn-chiang" não é mais pronunciado como o japonês "untenshu" (運転手), mas com a pronúncia própria dos taiwaneses, carregada de intimidade, de familiaridade de vizinhança. A língua foi assim digerida, tornou-se própria, até que quem a usa já esqueceu de onde ela veio.

📝 Nota do curador

A categoria mais fascinante entre os empréstimos do japonês é a das palavras que já se tornaram completamente nativas, a ponto de as pessoas esquecerem que são estrangeirismos. "Pǐnzhí" (品質, do japonês 品質, hinshitsu), "zhùshè" (注射, injeção) e "kānhù" (看護, enfermagem) foram implantadas em Taiwan através do sistema educacional do período japonês. Do outro lado do Estreito, usa-se "zhìliàng" (質量), "dǎzhēn" (打針) e "hùshì" (護士). O mesmo conceito, palavras diferentes — o ponto de partida dessa diferença está justamente naqueles cinquenta anos de caminhos divergentes.

As marcas gramaticais do substrato do hokkien taiwanês

O mais fácil de passar despercebido não são as palavras emprestadas, mas o modo silencioso como o hokkien taiwanês remodelou a forma como os taiwaneses falam mandarim.

"Wǒ yǒu chīfàn le." (我有吃飯了 — "Eu já comi".)

Qualquer pessoa que cresceu em Taiwan entende essa frase, e nem sequer acha estranho. Mas a estrutura "yǒu (有) + verbo" não existe no mandarim padrão. A forma padrão é "Wǒ chīfàn le" (我吃飯了). O uso de "yǒu" (有) antes do verbo para indicar a conclusão de uma ação é característico do hokkien taiwanês (que diz "guá ū chia̍h-kòe--ah", 我有食過矣). Não é um erro gramatical; é a influência gramatical de fundo do hokkien taiwanês, que se infiltrou naturalmente no padrão gramatical do mandarim ao longo de gerações de conversas cotidianas.

Há um exemplo ainda mais sutil. Os taiwaneses dizem "Tā gěi wǒ dǎ" (他給我打), com o sentido de "Ele me bateu". Aqui, o caractere "gěi" (給) é um transplante semântico do caractere "kā" (共) do hokkien taiwanês, que marca uma relação de passivo ou de objeto afetado, algo completamente diferente do sentido original de "doar/dar" que "gěi" tem no mandarim padrão. Esse uso aparece em muitas conversas cotidianas e em prosas literárias de Taiwan, mas quase não ocorre na fala ou na escrita do continente.

Os linguistas chamam esse fenômeno de "influência de substrato" (substratum influence). O hokkien taiwanês é a língua popular mais antiga desta terra chamada Taiwan; ele sustenta, como uma fundação, o modo como os taiwaneses falam mandarim. Mesmo com o uso do próprio hokkien taiwanês encolhendo, sua estrutura continua viva na gramática do mandarim taiwanês, silenciosa e discretamente.

1949: dois dicionários que tomaram caminhos divergentes

Em 1949, o governo nacionalista retirou-se para Taiwan, trazendo consigo um grande contingente de falantes de língua vindos de várias províncias da China: sotaque de Xangai, sotaque de Pequim, sotaque de Sichuan — vários tipos de mandarim se encontraram nesta pequena ilha chamada Taiwan. O governo logo lançou o "Movimento do Mandarim Nacional" (國語運動), fazendo do mandarim padrão baseado na pronúncia de Pequim a língua do ensino escolar. O hokkien taiwanês, o hakka e as línguas indígenas foram excluídos da sala de aula, e os alunos eram castigados por falarem sua língua materna. Em 1955, o governo provincial de Taiwan emitiu um comunicado proibindo as igrejas de usarem o sistema de romanização do hokkien taiwanês, sem exceção nem mesmo para ocasiões religiosas.

Esse período histórico deixou não apenas cicatrizes, mas também uma espécie de cristalização vocabular.

A partir daí, o mandarim de Taiwan seguiu seu próprio caminho. O "Dicionário Revisado do Mandarim Nacional" (重編國語辭典修訂本) do Ministério da Educação registra os usos característicos de Taiwan; o continente, por sua vez, elaborou em 1955 o "Dicionário do Chinês Moderno" (現代漢語詞典), seguindo um caminho de padronização diferente. Depois de décadas de desenvolvimento separado desses dois dicionários, já existem mais de trezentos verbetes com divergência evidente entre o vocabulário de uso comum.

"Jìchéngchē" (計程車) e "chūzūchē" (出租車) — táxi; "ruǎntǐ" (軟體) e "ruǎnjiàn" (軟件) — software; "yìngdié" (硬碟) e "yìngpán" (硬盤) — disco rígido; "pǐnzhí" (品質) e "zhìliàng" (質量) — qualidade. Por trás de cada par de palavras há uma bifurcação de caminhos que cada lado seguiu por conta própria.

📊 Os números falam

O "Manual de Consulta de Termos do Continente" (大陸用語檢索手冊), publicado em 1997 pelo Conselho de Assuntos Continentais do Yuan Executivo (organizado por Zhu Jianing e outros), reuniu as divergências evidentes entre o vocabulário comum de Taiwan e do continente, cobrindo áreas como vida cotidiana, tecnologia, educação e mídia. As divergências se dividem em três tipos principais: palavras herdadas do japonês (biàndāng/héfàn — marmita), divergências na estratégia de tradução (ruǎntǐ/ruǎnjiàn — software), e neologismos criados de forma independente pelos dois lados (wǎnglù/hùliánwǎng — internet).

O eco linguístico depois da lei marcial

Em 1987, Taiwan levantou a lei marcial, encerrando trinta e oito anos de repressão política. As línguas que haviam sido soterradas também começaram, aos poucos, a ressurgir.

As emissoras de televisão passaram a exibir programas em hokkien taiwanês; o currículo escolar incorporou "línguas locais" (鄉土語言), mais tarde promovidas à categoria de disciplina obrigatória sob o nome de "línguas nativas" (本土語言). O Instituto de Linguística da Academia Sinica incluiu o "mandarim taiwanês" (台灣國語 — a variante do mandarim com traços de substrato do hokkien taiwanês) no âmbito da pesquisa sobre línguas nativas, tratando-o como um fenômeno linguístico digno de estudo independente, e não como uma versão inferior do mandarim padrão.

O hokkien taiwanês, o hakka e as línguas indígenas entraram nos livros didáticos, mas décadas de repressão linguística não se resolvem com uma reforma curricular. O que muitos linguistas fizeram nesse período não foi apenas pesquisa, mas algo mais parecido com um socorro de emergência: gravar em fita o vocabulário que saía da boca dos idosos, correndo contra o tempo antes que a última geração de falantes nativos morresse, para preservar a língua. 語言多樣性與母語文化

Essa também foi uma época de uma estética linguística particular: misturar hokkien taiwanês e mandarim, não por falta de fluência, mas por escolha. "Jiu" (揪, convidar/reunir) carrega uma intimidade a mais do que "yuē" (約, marcar); "Chia̍h-pá--bōe" (呷飽未, "já comeu?") tem um calor a mais do que "Nǐ chī le ma" (你吃了嗎). As pessoas que falam essa língua mista sabem que estão fazendo uma escolha.

O cabo de guerra linguístico da era da internet

Depois dos anos 2000, uma nova pressão linguística começou a chegar de outra direção.

A internet colocou os falantes das duas margens do Estreito no mesmo espaço. Os taiwaneses começaram a entrar em contato, em fóruns, salas de bate-papo e redes sociais, com uma grande quantidade de termos usados no continente. "Yǐngpiàn" (影片) e "shìpín" (視頻) — vídeo — passaram a coexistir; "bùluòkè" (部落客) e "bózhǔ" (博主) — blogueiro — também; "ànzàn" (按讚) e "diǎnzàn" (點贊) — curtir — igualmente. Algumas palavras se infiltraram por serem práticas de usar; outras provocaram uma rejeição evidente.

Nos anos 2010, com a ascensão das plataformas de vídeos curtos, essa velocidade de infiltração aumentou. Os jovens de Taiwan, sem perceber, começaram a usar "guīmì" (閨蜜) em vez de "sǐdǎng" (死黨) — melhor amiga; "yánzhí" (顏值) em vez de "wàibiǎo" (外表) — aparência; "rénshè" (人設) em vez de "xíngxiàng" (形象) — imagem construída. Essas palavras não vieram de uma influência política; vieram junto com o conteúdo de entretenimento, junto com os algoritmos, junto com os vídeos engraçados.

Foi nesse contexto que surgiu o termo "polícia do vocabulário chinês" (支語警察). Apareceu primeiro nas comunidades de anime e games, depois se espalhou por vários fóruns de discussão, referindo-se a quem se mantém vigilante contra a "continentalização" da língua. Uns acham essa vigilância exagerada, outros acham que é proporcional. Mas, independentemente da posição, esse fenômeno em si revela algo: muitos taiwaneses começaram a se dar conta, ativamente, de que língua falam e de onde ela vem.

📝 Nota do curador

O sistema NoteTA da Wikipédia é a solução técnica mais interessante para esse problema. Esse sistema permite que os editores definam regras de conversão de vocabulário regional para um mesmo artigo: quem lê na variante tradicional de Taiwan vê "ruǎntǐ" (軟體); quem lê na variante simplificada do continente vê automaticamente "ruǎnjiàn" (軟件). Um único banco de dados, múltiplos conjuntos de vocabulário — a divergência linguística vira um problema de engenharia que pode ser resolvido em código. Isso não é unificação, é o reconhecimento da legitimidade da divergência.

Preservar não é coisa de museu

"Polícia do vocabulário chinês" e "preservação linguística" são duas coisas diferentes, mas nascem da mesma ansiedade: o desaparecimento da língua é real, a mudança da língua também é real, e ambos merecem ser levados a sério.

O linguista Tsao Feng-fu (曹逢甫), ao pesquisar o contato linguístico em Taiwan, escreveu: "O ecossistema linguístico de Taiwan é um campo de contato completo; a influência entre as diferentes línguas é bidirecional e dinâmica." O que ele quer dizer é que tratar qualquer fenômeno linguístico como "puro" ou como "contaminação" é simplificar um processo muito mais complexo do que isso.

Preservar os hábitos vocabulares do mandarim taiwanês não significa congelá-lo num museu, impedindo-o de continuar evoluindo. Significa, sim, preservar, ao longo do processo de evolução, os rastros de experiências de vida reais: a memória da Ferrovia Taiwan embutida na palavra "biàndāng" (marmita); o calor de vizinhança embutido na palavra "ōbāsang" (tia); o substrato do hokkien taiwanês embutido na frase "Wǒ yǒu chīfàn le" (eu já comi); e também o hokkien taiwanês das avós e as línguas indígenas dos anciãos das aldeias, que estão desaparecendo.

A língua está viva. Ela não deixa de mudar só porque foi registrada. Mas a parte que foi registrada pode deixar que as gerações futuras saibam o que esta ilha um dia teve, o que ela um dia sentiu.

É esse o sentido da preservação, não uma razão para o confronto.


Leitura Complementar

台灣外來語與語言接觸
台灣原住民語言復振運動
語言多樣性與母語文化
客家文化與語言


Leitura Complementar

  • Zhu Jianing e outros, Manual de Consulta de Termos do Continente, Conselho de Assuntos Continentais do Yuan Executivo, 1997. https://mac.gov.tw
  • Instituto de Linguística da Academia Sinica, Base de Dados de Pesquisa sobre o Mandarim Taiwanês. https://ling.sinica.edu.tw
  • Ministério da Educação, Dicionário Revisado do Mandarim Nacional (versão online). https://dict.revised.moe.edu.tw
  • Yang Yun-ping, "A política linguística do domínio japonês em Taiwan", em Cultura de Taiwan, 1948.
  • Tsao Feng-fu, Para onde vai a política linguística de Taiwan, Editora Avant-Garde, 1995.
  • Wikipédia, verbete "Mandarim taiwanês" (臺灣國語). https://zh.wikipedia.org/wiki/臺灣國語
  • Conselho de Pesquisa, Desenvolvimento e Avaliação do Yuan Executivo, Relatório sobre a Política Linguística de Taiwan, 2009. https://www.ndc.gov.tw
Sobre este artigo Este artigo foi elaborado de forma colaborativa pela comunidade, com auxílio de IA na redação e revisão.
Palavras-chave
Mandarim taiwanês Evolução linguística Empréstimos do japonês Vocabulário entre os dois lados do Estreito Identidade linguística
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