Esta ilha, em diferentes eras, sob diferentes olhares, reflete diferentes feições. Das lendas de criação dos povos originários ao assombro dos exploradores estrangeiros, dos versos de literatos às reflexões de escritores contemporâneos, a beleza e a melancolia de Taiwan ganham eternidade nestas linguagens.
A memória da terra dos povos originários
Lenda de criação do povo Atayal
«Utux (espírito ancestral) deixou a sua marca nesta terra; montanhas e rios são os corpos dos antepassados, nós somos filhos da terra.»
— Literatura oral Atayal(Contexto: Os Atayal creem que esta terra de Taiwan foi criada pelos espíritos ancestrais; humanos e natureza formam uma unidade, encarnando a visão sagrada da terra dos povos originários)
A imagem da ilha do povo Amis
«Devemos ser como raízes; cada pessoa acaba por voltar à terra; quanto mais tempo passa, mais firmes ficam; fincar raízes para baixo, fazer coisas simples, dá força.»
— Sabedoria tradicional Amis(Contexto: Os Amis comparam as pessoas a raízes de plantas, enfatizando a ligação profunda com a terra; esta é a visão de terra comum aos povos originários de Taiwan)
Era dos Descobrimentos (séculos 16-17)
A bela lenda dos portugueses
«Ilha Formosa!» (Ilha Bela!)
— Dito tradicional atribuído a marinheiros portugueses, c. 15441(Verificação historiográfica: Estudiosos modernos como Weng Chia-yin (翁佳音) verificaram que os portugueses chamavam Taiwan sobretudo de "Lequeo pequeño" (Pequeno Ryukyu); a designação "Ilha Bela" pode ser imaginação posterior. O uso atestado mais antigo de Formosa para Taiwan data dos anos 1580, por espanhóis)
O registo real dos espanhóis
«As Ilhas Fermosas» (As Ilhas Belas)
— Roteiro espanhol, 1584(Contexto: Segundo investigação académica, este é o registo documental mais antigo que de facto elogia Taiwan como "Ilhas Belas", proveniente de diários de bordo de frotas espanholas)
A descrição da Companhia Neerlandesa das Índias Orientais
«Esta ilha é rica em produtos, os nativos são bondosos e amigáveis, é verdadeiramente a chave do comércio do Leste Asiático.»
— Relatório da Companhia Neerlandesa das Índias Orientais, c. 1624(Contexto: Após ocuparem o sul de Taiwan, os neerlandeses descreviam assim o valor estratégico de Taiwan em relatórios ao Governador-Geral de Batávia)
Designações japonesas antigas
Era Toyotomi Hideyoshi
Carta ao «Rei do País das Montanhas Altas»: «Desejo que o País das Montanhas Altas preste tributo ao Japão e partilhe a prosperidade do Leste Asiático.»
— Carta de próprio punho de Toyotomi Hideyoshi, 1593 (Bunroku 2)(Contexto: Toyotomi Hideyoshi enviou Harada Sonchirō a Taiwan, chamando-a de "País das Montanhas Altas" (高山國), em japonês "Takasagun", que depois evoluiu para "Takasago" (高砂))
Designação da era Tokugawa
«País de Takasago» (タカサグン)
— 《Registos de Licenças de Viagem ao Exterior》, 1615 (Genna 1)(Contexto: Documento guardado no templo Konchi-in de Quioto; designa formalmente Taiwan como "País de Takasago"; "Takasago" em japonês significa "Ilha Bela", equivalente japonês de "Formosa")
Taiwan na pena de literatos da dinastia Qing
Yu Yonghe (郁永河) «Recordações de Viagem ao Mar Marginal» (裨海紀遊, 1697)
«Tenho por natureza gosto de viagens longínquas, não evito dificuldades nem perigos; sempre pensei que Taiwan já fazia parte do mapa, mas não pude ver a sua panorâmica, o que considerava uma lacuna.»
— Yu Yonghe, Prefácio de «Recordações de Viagem ao Mar Marginal»2(Contexto: Yu Yonghe veio a Taiwan recolher enxofre devido a um desastre num depósito de pólvora em Fujian; na qualidade de amante de viagens, descreve o motivo da sua vinda, mostrando a curiosidade dos intelectuais Qing por Taiwan)
«A planície a perder de vista, nada senão erva densa; a forte cobre o topo, a fraca esconde os ombros; carruagens correm no meio, como se no subsolo, pontas de erva cortam o rosto e rasgam o pescoço.»
— Yu Yonghe, «Recordações de Viagem ao Mar Marginal», volume médio(Contexto: Descreve a paisagem de pradaria da planície central de Taiwan, retratando vividamente o aspecto primitivo de Taiwan no século 17, ainda largamente por desenvolver)
«Ao sair de casa, a erva cobre os ombros, árvores antigas enroscadas, indescritíveis; bambus maus crescem entre elas, a poucos passos não se vê objecto algum.»
— Yu Yonghe, «Recordações de Viagem ao Mar Marginal», volume médio(Contexto: Descreve a selva densa do norte de Taiwan, refletindo a paisagem selvagem e majestosa do ambiente natural de Taiwan na época)
Literatura taiwanesa durante o período colonial japonês
Lai Ho (賴和, 1894-1943) — Pai da Nova Literatura de Taiwan
«Ser taiwanês é verdadeiramente má sorte.»
— Lai Ho, poema «Sacrifício sob o Despertar»3(Contexto: Publicado em 1925, a propósito do Incidente de Erlin, expressa a impotência e o protesto dos taiwaneses sob o domínio colonial; tornou-se uma voz clássica de protesto na literatura de Taiwan)
Yang Kui (楊逵, 1906-1985)
«Queremos ser humanos, não escravos.»
— Espírito de resistência na obra de Yang Kui(Contexto: Yang Kui foi importante escritor de esquerda de Taiwan; dedicou a vida à condição de camponeses e operários; esta frase representa a sua insistência na dignidade humana)
Escritores de Taiwan no pós-guerra
Wu Zhuoliu (吳濁流) «Órfão da Ásia» (亞細亞的孤兒, 1945)
«Quatrocentos anos de errância como órfão, sob hegemonias de diferentes nomes, tudo entregue ao destino.»
— Wu Zhuoliu, «Órfão da Ásia»4(Contexto: Descreve a condição errante dos taiwaneses nas vicissitudes históricas; "Órfão da Ásia" tornou-se vocábulo clássico para descrever o destino de Taiwan)
«Não existe tal coisa como "taiwaneses"; se existissem, seriam os das aldeias indígenas nas montanhas profundas. Os que comummente se chamam taiwaneses são, na verdade, completa e inteiramente chineses.»
— Dúvida de identidade de uma personagem de Wu Zhuoliu(Contexto: Reflete a complexidade da identidade dos taiwaneses no período colonial japonês; nem plenamente aceites pelos japoneses, nem sem distância face à China)
Zhong Zhaozheng (鍾肇政, 1925-2020) — Gigante da literatura de Taiwan
«Amar a nossa terra começa por conhecê-la.»
— Conceito literário de Zhong Zhaozheng(Contexto: Zhong Zhaozheng dedicou a vida à construção e promoção da literatura de Taiwan, enfatizando a ligação entre literatura e terra)
Bai Xianyong (白先勇, 1937-)
A saudade e a memória dos «Taipenses»
— Coletânea de contos «Taipenses»(Contexto: Através da perspetiva de imigrantes da China continental, descreve Taiwan, exibindo as memórias de vida de diferentes grupos étnicos nesta ilha)
Lung Ying-tai (龍應台) «O Grande Rio, o Grande Mar: 1949» (大江大海一九四九, 2009)
«Toda a injustiça das guerras reside no desamparo da gente comum.»
— Lung Ying-tai, «O Grande Rio, o Grande Mar: 1949»(Contexto: Descreve o impacto da grande migração de 1949 na sociedade de Taiwan, reflete sobre o trauma da guerra nas pessoas comuns)
Vozes contemporâneas de Taiwan
Chi Po-lin (齊柏林) «Ver Taiwan» (看見台灣, 2013)
«A montanha é o ponto de partida de tudo, a nascente dos rios, berço de várias formas de vida; é o ponto de partida do meu sonho original, e também a inspiração inicial que me levou à fotografia aérea.»
— Chi Po-lin5(Contexto: Primeiro fotógrafo aéreo de Taiwan; com visão de pássaro reinterpretou a beleza de Taiwan, despertando consciência de proteção ambiental)
Wu Ming-yi (吳明益) «O Mago da Passarela» (天橋上的魔術師, 2011)
«A memória engana, mas o sentimento não.»
— Wu Ming-yi, «O Mago da Passarela»(Contexto: Ambientado no Centro Comercial Chunghwa, descreve o desaparecimento e a reconstrução da memória urbana de Taipei, explora a perda no processo de modernização)
Wu Ming-yi (吳明益) «O Homem de Olhos Compostos» (複眼人, 2011)
«Somos todos ilhas, mas o oceano conecta-nos.»
— Wu Ming-yi, «O Homem de Olhos Compostos»(Contexto: Através da escrita de literatura ambiental, reflete sobre a relação entre humanos e natureza, e a crise ecológica na era da globalização)
Syaman Rapongan (夏曼·藍波安, 1957-) — Escritor Tao (Yami)
«O oceano é o nosso frigorífico, é a nossa pátria, é o nosso tudo.»
— Syaman Rapongan(Contexto: Representante da literatura oceânica Tao; enfatiza a cultura oceânica e a sabedoria ecológica dos povos originários)
Badai (巴代, 1962-) — Escritor Puyuma
«A memória da aldeia esconde-se nas rugas dos velhos, esconde-se no aroma das montanhas e florestas.»
— Badai(Contexto: Através do romance revive a memória cultural Puyuma, ligando tradição e identidade originária moderna)
Taiwan sob perspetiva internacional
Observação de jornalistas estrangeiros
«Taiwan é uma sociedade democrática cheia de vitalidade, que desenvolveu características únicas sobre a base da cultura chinesa.»
— Descrição comum da mídia internacional sobre Taiwan(Contexto: Reflete o reconhecimento generalizado da comunidade internacional sobre a transição democrática e a diversidade cultural de Taiwan)
Escritores internacionais contemporâneos
«Taiwan represents a unique blend of Chinese heritage and modern innovation.» (Taiwan representa uma fusão única de herança chinesa e inovação moderna)
— Observadores internacionais(Contexto: Académicos e escritores internacionais consideram geralmente que Taiwan encontrou um ponto de equilíbrio entre herança cultural e desenvolvimento moderno)
Conclusão: As mil faces da ilha
Estas vozes de diferentes eras e diferentes grupos étnicos tecem em conjunto a face complexa de Taiwan. Dos mitos de criação dos povos originários ao assombro dos forasteiros, das descrições poéticas dos literatos às reflexões ambientais contemporâneas, cada perspetiva captura uma faceta de Taiwan.
Taiwan, seja chamada Formosa, Takasago ou Taiwan, é sempre um lugar que deixa marca profunda. A sua beleza não reside apenas na paisagem, mas na coexistência e no diálogo de culturas diversas, nas pegadas e memórias que diferentes grupos deixaram nesta terra.
Como disse Chi Po-lin, este é o Taiwan que precisa de ser «visto»; como crêem os povos originários, esta é a terra que precisa de ser «guardada»; como experimentaram todos os que aqui viveram, este é um lar que merece ser «amado».
Esta coletânea de citações recolhe frases clássicas de documentos históricos e obras literárias, visando apresentar as múltiplas faces de Taiwan através dos olhares de diferentes épocas. Algumas citações, pela antiguidade ou natureza oral, têm a proveniência assinalada como "carece de verificação" ou incluem explicações de contexto para referência.
Referências
- Wikipédia: Formosa — Verificação histórica do nome "Formosa", contendo a disputa de nomeação entre marinheiros portugueses e frotas espanholas.↩
- Wikisource: Recordações de Viagem ao Mar Marginal — Texto integral do relato de Yu Yonghe (1697) sobre a vinda a Taiwan recolher enxofre, contendo prefácio e volumes superior, médio e inferior.↩
- Wikipédia: Lai Ho — Vida de Lai Ho (1894-1943) e contexto de criação de «Sacrifício sob o Despertar» (1925), contendo registos relativos ao Incidente de Erlin.↩
- Wikipédia: Órfão da Ásia — Romance longo de Wu Zhuoliu (1945), obra clássica da literatura de Taiwan sobre o tema da identidade.↩
- Fundação Chi Po-lin — Vida do fotógrafo aéreo Chi Po-lin (1964-2017) e materiais relativos ao documentário «Ver Taiwan» (2013).↩