A cultura voluntária e a participação cívica em Taiwan: a bondade cotidiana de uma ilha

30 donas de casa economizando cinquenta centavos por dia, 60 anos depois transformaram-se num império de caridade que abrange 128 países — a cultura voluntária de Taiwan não é um slogan, é um DNA coletivo escrito no cotidiano

Visão geral em 30 segundos: Taiwan possui mais de 1,1 milhão de voluntários registrados, que contribuem anualmente com mais de 120 milhões de horas de serviço não remunerado. Da Associação Tzu Chi, que começou com 30 donas de casa economizando cinquenta centavos por dia em Hualien, até os quase 9.000 postos de reciclagem ambiental em toda a ilha, as mães contadoras de histórias nas escolas, as equipes de entrega de refeições para idosos nas comunidades — o voluntariado não é uma "virtude" de Taiwan, é a "infraestrutura" de Taiwan.
(O modelo de mobilização de voluntários em desastres, ver "super-homens da pá e sincronia insular (台灣災難志工文化)")

O ponto de partida dos cinquenta centavos

Em 1966, uma bhikkhuni budista em Hualien testemunhou uma cena: uma mulher indígena, por não conseguir pagar uma caução de oito mil dólares, teve o aborto espontâneo recusado pelo hospital, deixando uma poça de sangue no chão. Aquela bhikkhuni chamava-se Cheng Yen, e aquela poça de sangue mudou a história da filantropia em Taiwan.

Cheng Yen regressou ao Jing Si Abode, reuniu 30 donas de casa, e cada uma passou a guardar cinquenta centavos (novos dólares taiwaneses) por dia num tubo de bambu. O que se comprava com cinquenta centavos? Em 1966, cinquenta centavos compravam aproximadamente um ovo. Mas os cinquenta centavos de 30 pessoas, num mês, somavam 450 dólares: o suficiente para socorrer uma família em emergência.

A "Fundação Budista Tzu Chi" nasceu assim. As duas palavras "superar dificuldades" (克難) eram reais — não havia escritório, não havia funcionários dedicados, apenas tubos de bambu e um grupo de donas de casa.

📝 Nota do curador
Em 2023, a receita anual da Tzu Chi atingiu 9,66 bilhões de novos dólares taiwaneses, com filiais em 128 países no mundo, e mais de 94 mil comissários e membros Tzu Cheng registrados. Dos cinquenta centavos aos bilhões — esta curva de crescimento é a nota de rodapé mais dramática da cultura voluntária de Taiwan. Mas a Tzu Chi é apenas uma parte da história.

O nascimento do sistema: uma lei e o que ela mudou

O ponto de viragem da cultura voluntária de Taiwan foi a aprovação da "Lei de Serviço Voluntário" em 1999.

Antes disso, voluntários eram "pessoas boas fazendo o bem", sem garantia legal, sem sistema de formação, sem seguro. Um voluntário ferido durante o serviço não tinha quem respondesse. A Lei fez três coisas: definiu direitos e deveres dos voluntários, estabeleceu um sistema de formação e certificação (formação básica de 12 horas + formação especializada), exigiu que as organizações contratassem seguro para os voluntários.

Esta lei transformou "boa vontade" em "sistema". Desde então, os voluntários de Taiwan não são apenas pessoas de bom coração, mas servidores cívicos com caderneta, certificação de horas e formação profissional.

1,1 milhão+ 120 milhões+ horas
Voluntários registrados em Taiwan (2023, estatísticas do Ministério da Saúde e Bem-Estar) Total de horas de serviço anuais

Postos de reciclagem ambiental: a maior rede de base ambiental do mundo

Em agosto de 1990, Yang Shun-ling, moradora de Fengyuan, após ouvir uma palestra da Mestre Cheng Yen, regressou a casa e começou a promover a reciclagem de recursos entre os vizinhos. A Mestre Cheng Yen elogiou-a publicamente, e então — todo o sistema Tzu Chi começou a estabelecer "Estações de Educação Ambiental" em vários locais.

Hoje, Taiwan tem mais de 8.800 estações de reciclagem ambiental da Tzu Chi, com mais de cem mil voluntários ambientais. A sua maioria são idosos reformados, que chegam às estações às cinco ou seis da manhã, curvando-se para separar cartão, garrafas PET, latas de alumínio.

Isto não é a "reciclagem" que você imagina. Em 2008, a Tzu Chi fundou a "Da Ai Technology", transformando garrafas PET recicladas em cobertores, enviados para zonas de desastre em todo o mundo. Uma garrafa PET recolhida por uma avó curvada, no final torna-se o cobertor no corpo de um desabrigado do terramoto no Haiti.

As estações ambientais são simultaneamente centros sociais para idosos da comunidade. Muitos idosos que vivem sozinhos têm como maior expectativa do dia ir à estação ambiental "trabalhar" — não pelo ambiente, mas para ter com quem falar.

Mães contadoras de histórias: uma revolução silenciosa da leitura

Entre em qualquer escola primária de Taiwan, durante o período de autoestudo matinal, você provavelmente verá uma mãe de avental, sentada diante do pódio, a contar uma história a um grupo de crianças de sete anos.

"Mães contadoras de histórias" — este termo que só existe em Taiwan — refere-se aos pais que vão às escolas como voluntários de promoção da leitura. Elas (a esmagadora maioria são mulheres) recebem formação em técnicas de narração e psicologia infantil, e vão semanalmente às turmas contar uma história. Sem salário, sem título, apenas um par de olhos concentrados a ouvir.

Este movimento começou a expandir-se nos anos 1990, e hoje cobre praticamente todas as escolas primárias de Taiwan. Muitas crianças tiveram o primeiro interesse por "livros" não porque o professor indicou a leitura, mas porque a mãe contadora de histórias as fez rir.

💡 Sabia que?
As "mães contadoras de histórias" não são apenas nas escolas. Bibliotecas, hospitais, lares de idosos também têm voluntários de narração. Os "voluntários de histórias" do Hospital da Universidade Nacional de Taiwan vão especificamente às alas pediátricas contar histórias — para uma criança de cinco anos internada há três meses, aqueles podem ser os melhores vinte minutos do dia.

Idosos a cuidar de idosos

Em 1995, a "Fundação Lao Wu Lao" foi fundada em Taichung. O nome vem de Mencius: "Tratar os próprios velhos com a devoção devida aos velhos, e estender isso aos velhos dos outros" — cuidar dos próprios idosos, e também cuidar dos idosos alheios.

Mas o verdadeiramente especial é a sua estrutura de voluntários: os próprios prestadores de serviço são idosos. Reformados de 65 anos vão cuidar de idosos solitários de 80 anos — telefonar a perguntar como estão, entregar refeições, acompanhar consultas. A sensação de "ser necessário" faz com que os próprios prestadores vivam melhor. Este modelo foi depois copiado por muitas organizações de assistência social.

A velocidade de envelhecimento de Taiwan é uma das mais rápidas do mundo. Em 2025, a população com 65 anos ou mais já ultrapassa 20%. Idosos solitários são cada vez mais, a mão de obra de cuidados de longa duração do governo nunca é suficiente. Nas frestas do sistema, são os voluntários que preenchem.

A luz e a sombra da Tzu Chi

Qualquer artigo sobre a cultura voluntária de Taiwan não pode contornar a Tzu Chi. É a maior organização sem fins lucrativos de Taiwan, e também a mais controversa.

O lado positivo é óbvio: ajuda humanitária em 128 países, o primeiro banco de medula óssea de Taiwan (promovido em 1993, com alcance de compatibilidade que abrange a China continental), sete hospitais, um sistema educacional completo do jardim de infância à universidade, relatórios financeiros transparentes com receita anual de quase cem bilhões.

As controvérsias sempre existiram. Críticos apontam que a governança interna da Tzu Chi depende excessivamente da Mestre Cheng Yen pessoalmente, que as formas de angariação de fundos de alguns voluntários são demasiado agressivas, que a cor religiosa dos hospitais Tzu Chi conflui com o seu papel de saúde pública, e que há disputas de uso de solo nas estações de reciclagem. Em 2015, o "caso de desenvolvimento do parque de Neihu" provocou forte reação de grupos ambientalistas, tornando-se uma das maiores crises de relações públicas da história da Tzu Chi.

⚠️ Ponto de vista da controvérsia
Os apoiantes consideram a Tzu Chi a organização de caridade mais eficiente de Taiwan; os críticos consideram-na uma enorme empresa religiosa sem fiscalização externa. Este debate até hoje não tem conclusão — talvez nunca tenha. Mas, independentemente da posição, ninguém pode negar uma coisa: a Tzu Chi mudou a imaginação dos taiwaneses sobre o que são "voluntários".

Não é só a Tzu Chi

O ecossistema de utilidade pública de Taiwan é muito mais rico do que apenas a Tzu Chi:

A Sociedade de Proteção da Natureza (fundada em 1995) é uma das ONG ambientais mais importantes de Taiwan, focada em conservação ecológica e educação ambiental. O seu sistema de "observação em pontos fixos" — voluntários que acompanham a longo prazo as mudanças ecológicas de um mesmo habitat — forneceu muitos dados locais insubstituíveis pela investigação académica.

A World Vision Taiwan através do programa de apadrinhamento de crianças, ajuda anualmente dezenas de milhares de crianças vulneráveis. O acampamento de experiência da fome "Fome Trinta" de Taiwan, realizado desde 1990, atrai anualmente milhares de jovens.

A Fundação de Assistência Social Eden (fundada em 1982) foca-se em serviços para pessoas com deficiência; a sua fundadora Liu Xia (pseudónimo Xing Linzi) era ela própria doente de artrite reumatoide, e usou a sua experiência para erguer uma organização que serve dezenas de milhares de pessoas.

E还有 incontáveis que não se consegue nomear: as patrulhas das associações de desenvolvimento comunitário, as avós de mota que entregam refeições em zonas remotas, os coletes azuis que orientam o registo nos hospitais, os voluntários que ajudam a empurrar cadeiras de rodas nas estações de metro.

A mais bela paisagem

"A mais bela paisagem de Taiwan são as pessoas" — esta frase foi usada até à exaustão pelo Turismo de Taiwan, mas ela descrevia originalmente exatamente esta bondade cotidiana.

Não é a bondade dos grandes jantares de caridade, é a caixa de donativos de trocos nas lojas de conveniência, são os vizinhos que espontaneamente vão limpar as valas de drenagem nos dias de tufão, são os transeuntes que vêm um turista estrangeiro perdido e se oferecem para o guiar. O valor per capita de doações de Taiwan há muito figura entre os primeiros da Ásia. No Índice Global de Generosidade 2024 da CAF (Charities Aid Foundation), Taiwan ocupa o 33.º lugar mundial, sendo o terceiro na Ásia, apenas atrás da Indonésia e de Myanmar.

Mas esta frase também enfrenta desafios. O envelhecimento faz com que a idade média dos voluntários não pare de subir — voluntários acima de 45 anos representam sete em cada dez. A urbanização enfraqueceu a coesão comunitária. As gerações mais novas tendem a participar em projetos de curto prazo, em vez dos compromissos de longo prazo tradicionais. Horas de trabalho excessivas impedem os assalariados de espremer tempo mesmo aos fins de semana.

Será que a cultura voluntária consegue transmitir-se à próxima geração? A resposta talvez não esteja no sistema, mas numa certa escola durante o autoestudo matinal — quando uma mãe contadora de histórias faz uma criança de sete anos sentir pela primeira vez que "ajudar os outros" é uma coisa muito fixe.

Referências

Sobre este artigo Este artigo foi elaborado de forma colaborativa pela comunidade, com auxílio de IA na redação e revisão.
Palavras-chave
serviço voluntário organizações de utilidade pública Tzu Chi OSC construção comunitária mães contadoras de histórias
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