
Em 3 de dezembro de 1966, o primeiro-ministro Yen Chia-kan presidiu a inauguração da Zona de Processamento para Exportação de Kaohsiung, a primeira do mundo. Foto: Exposição de Documentos Históricos Preciosos do Yuan Executivo. Fonte histórica.
Visão geral em 30 segundos: No início da década de 1950, a renda média por pessoa em Taiwan mal passava de cem dólares1, situando o país entre os mais pobres do mundo. Na época, o salário mensal de um operário taiwanês não bastava para comprar um par de tênis fabricado nos Estados Unidos. O ponto de partida da virada não foi uma fábrica, mas uma reforma agrária: o governo trocou as terras dos proprietários por ações de empresas, permitindo que agricultores arrendatários tivessem sua própria terra pela primeira vez2. Vieram depois as operárias que trabalhavam 12 horas por dia nas zonas de processamento para exportação, os donos de pequenas e médias empresas que apostavam todas as economias da família em uma pequena fábrica e os empresários taiwaneses que percorriam o mundo com uma única mala. Quarenta anos depois, a renda per capita de Taiwan superou dez mil dólares, e o país passou a ser chamado, ao lado de Coreia do Sul, Hong Kong e Singapura, de um dos “Quatro Tigres Asiáticos”. O milagre econômico taiwanês não foi mérito do governo: foi uma história de sangue, suor e lágrimas construída em conjunto por 20 milhões de pessoas.
Em 3 de dezembro de 1966, a Zona de Processamento para Exportação de Kaohsiung entrou oficialmente em operação3. Era a primeira “zona de processamento para exportação” do mundo, um experimento econômico que até então existia apenas na imaginação das autoridades taiwanesas.
Naquela manhã, havia apenas uma fábrica produzindo dentro da zona: a fábrica de eletrônicos da National. Trinta operárias estavam sentadas na linha de produção, montando componentes de rádio. Seu salário mensal era de NT$ 600, cerca de US$ 20 — mal o suficiente para comprar um saco de dez quilos de arroz.
Ninguém sabia se o experimento daria certo. Consultores norte-americanos consideravam “baixa demais a qualificação dos trabalhadores taiwaneses”; empresários japoneses achavam “péssima demais a infraestrutura de Taiwan”. Nem mesmo as autoridades tinham certeza: estavam apenas tentando salvar a situação como quem “trata um cavalo morto como se ainda estivesse vivo”.
Vinte anos depois, a Zona de Processamento para Exportação de Kaohsiung havia se tornado um símbolo da decolagem econômica de Taiwan. Em uma tarde de 1985, naquela mesma linha de produção, operárias montavam as calculadoras eletrônicas mais recentes. Seu salário mensal já havia subido para NT$ 15 mil, suficiente para comprar uma motocicleta.
Esta é uma síntese do milagre econômico taiwanês: não um conto de enriquecimento da noite para o dia, mas uma história de virada conquistada por uma geração com sangue e suor. E o verdadeiro começo dessa história ocorreu mais de dez anos antes da zona de processamento para exportação.
Da pobreza ao bem-estar: a história real por trás dos números
Década de 1950: o ponto de partida na miséria
Quão pobre era Taiwan no início da década de 1950? Alguns números bastam para entender:
- Renda média por pessoa: cerca de US$ 150 — pouco diferente da registrada nos países mais pobres da época1
- Mortalidade infantil: 44,7‰ — de cada mil recém-nascidos, 45 não chegavam ao primeiro ano de vida
- Expectativa de vida: 53 anos — trinta anos a menos que hoje
- Taxa de alfabetização: 42% — menos da metade da população sabia ler e escrever
O que os taiwaneses comiam naquela época? Tiras de batata-doce com mingau de arroz. As tiras eram feitas cortando-se a batata-doce em filetes e deixando-os secar para conservação. Como o arroz era caro demais, muitas pessoas não podiam comprá-lo. Para uma família comum, um “dia de fartura” significava comer tiras de batata-doce misturadas com arroz branco, aproximadamente na proporção de sete para três.
📝 Nota da curadoria
Naquela época, havia um ditado: “Criar galinhas e patos não é tão bom quanto criar uma filha que saiba estudar.” Por quê? Porque uma filha instruída poderia se casar com um funcionário público, garantindo uma renda estável para a família. O ditado revela o grau de pobreza de Taiwan naquele período: até criar galinhas ou patos era um luxo.
Reforma agrária: títulos de propriedade convertidos em oportunidades de ascensão

O primeiro-ministro Chen Cheng recebe da população uma faixa de agradecimento pela política “a terra para quem a cultiva”, que permitiu aos agricultores arrendatários possuir as terras em que trabalhavam. Foto: Exposição de Documentos Históricos Preciosos do Yuan Executivo. Fonte histórica.
Antes das zonas de processamento para exportação, dos Dez Grandes Projetos de Infraestrutura e da TSMC, o verdadeiro primeiro passo do milagre econômico de Taiwan foi uma reforma agrária conduzida discretamente.
Entre 1949 e 1953, o governo transferiu terras dos proprietários para os agricultores que efetivamente as cultivavam, em três etapas[^2]:
- Redução dos arrendamentos para 37,5% (1949): o aluguel da terra, antes equivalente a 50% ou 60% da produção, foi obrigatoriamente limitado a no máximo 37,5%
- Venda de terras públicas (1951): terras agrícolas públicas foram vendidas aos arrendatários que já as cultivavam, permitindo que comprassem em prestações o solo em que haviam trabalhado a vida inteira
- A terra para quem a cultiva (1953): as terras dos proprietários que excediam o limite permitido foram compulsoriamente adquiridas e revendidas a arrendatários sem terra
Os efeitos dessas três medidas foram imediatos: pela primeira vez, os agricultores passaram a ser verdadeiramente donos de suas terras, o que aumentou sua disposição para cultivá-las e elevou a produtividade agrícola. Como indenização, os antigos proprietários receberam ações de quatro grandes empresas estatais — Taiwan Cement, Taiwan Pulp and Paper, Taiwan Industrial and Mining Corporation e Taiwan Agriculture and Forestry — e foram forçados a se transformar de “proprietários que viviam da renda da terra” em “acionistas que investiam na indústria”. Esse capital extraído do meio rural viria a se tornar a primeira semente da industrialização de Taiwan.
💡 Você sabia?
Em 1968, o governo da República da China (Taiwan) e o Lincoln Institute of Land Policy, dos Estados Unidos, fundaram em conjunto o Land Reform Training Institute, que transmitia a outros países em desenvolvimento a experiência taiwanesa de reforma agrária. Em 2000, a instituição passou a se chamar International Center for Land Policy Studies and Training e continua em atividade4.
Naturalmente, essa reforma agrária não ocorreu sem custos. Mais de 80% das terras de propriedade compartilhada que eram arrendadas foram desapropriadas, enquanto apenas cerca de 30% das terras de propriedade individual tiveram o mesmo destino. Em outras palavras, os pequenos coproprietários, que tinham menor capacidade de resistência, sofreram os cortes mais profundos. Também houve casos como o da família Koo, de Lukang, que colaborou com a reforma, trocou terras por ações e mais tarde construiu um grande conglomerado. Desde o início, a história da virada não beneficiou a todos na mesma proporção.
Década de 1960: o milagre das zonas de processamento para exportação
Em 1966, Taiwan tomou uma decisão que mudaria seu destino: criar a Zona de Processamento para Exportação de Kaohsiung, dedicada à fabricação sob contrato para atender encomendas estrangeiras3.
O contexto por trás dessa decisão era muito concreto: além de mão de obra barata, Taiwan não tinha nada. Não havia petróleo, minério de ferro, tecnologia nem marcas próprias. Sua única vantagem era a disposição dos trabalhadores para cumprir jornadas longas em troca de salários muito baixos.
Entre as primeiras empresas instaladas estavam:
- National Electronics — empresa japonesa que montava rádios
- Philips Electronics — empresa neerlandesa que produzia componentes para televisores
- General Instrument — empresa norte-americana que fabricava semicondutores
Essas fábricas tinham uma característica em comum: empregavam um grande número de operárias jovens. Por quê? Porque a montagem de componentes eletrônicos exigia trabalho manual delicado, e os conceitos sociais da época sustentavam que “as mulheres tinham mãos habilidosas, eram pacientes e não causavam problemas”.
Em 1970, as mulheres representavam 85% dos trabalhadores da Zona de Processamento para Exportação de Kaohsiung. A maioria tinha entre 18 e 25 anos, era solteira, havia deixado o campo para viver em dormitórios das fábricas em Kaohsiung e trabalhava de dez a 12 horas por dia.
Essas operárias reescreveram a história econômica de Taiwan.
Década de 1970: a grande aposta dos Dez Grandes Projetos de Infraestrutura
Em 1973, a crise do petróleo atingiu duramente a economia taiwanesa. As exportações encolheram, a inflação disparou e o desemprego aumentou. Muitas pessoas achavam que “Taiwan estava acabado”.
Chiang Ching-kuo, porém, tomou uma decisão ousada: promover os “Dez Grandes Projetos de Infraestrutura”, recorrendo à capacidade de investimento do governo para preparar as condições da próxima etapa do crescimento econômico.

O primeiro-ministro Chiang Ching-kuo, que liderou a grande aposta dos Dez Grandes Projetos de Infraestrutura quando a crise do petróleo de 1973 atingiu a economia de Taiwan. Foto: Exposição de Documentos Históricos Preciosos do Yuan Executivo. Fonte histórica.
Investimento total nos Dez Grandes Projetos de Infraestrutura: cerca de NT$ 200 bilhões — várias vezes o valor das reservas cambiais da época.
Os projetos incluíam a Autoestrada Sun Yat-sen, o Aeroporto Internacional de Taoyuan, o Porto de Taichung, as usinas nucleares nº 1 e nº 2, a China Steel, a China Shipbuilding Corporation e a indústria petroquímica, entre outras obras de transporte e indústria pesada. O planejamento completo e as controvérsias são apresentados separadamente em “Dez Grandes Projetos de Infraestrutura: uma aposta de NT$ 200 bilhões sobre US$ 1 bilhão em reservas cambiais”.
Na época, essas obras foram criticadas como “megalomaníacas” e acusadas de “deixar dívidas para as gerações futuras”. Posteriormente, porém, ficou demonstrado que, sem essa infraestrutura, a decolagem econômica da década de 1980 simplesmente não teria sido possível.
⚠️ Ponto de vista controverso
Embora os Dez Grandes Projetos de Infraestrutura tenham sido bem-sucedidos, seu custo também foi elevado. Para captar recursos, o governo emitiu grandes volumes de títulos da dívida pública, gerando um pesado endividamento. Além disso, o desenvolvimento da indústria pesada provocou poluição ambiental cujas consequências ainda estão sendo enfrentadas. O milagre econômico não ocorreu sem custos.
Década de 1980: a era de ouro das pequenas e médias empresas
A década de 1980 foi o período mais brilhante da economia de Taiwan. Seus verdadeiros protagonistas, contudo, não foram os grandes projetos governamentais, mas as pequenas e médias empresas espalhadas por todo o país.
Alguns números:
- 1980: Taiwan tinha 550 mil pequenas e médias empresas
- 1990: Taiwan tinha 900 mil pequenas e médias empresas
- Pessoas empregadas por pequenas e médias empresas: mais de 70% da população ocupada de Taiwan
O que essas empresas faziam? Produção OEM sob contrato.
OEM significa Original Equipment Manufacturer, ou fabricante de equipamento original. Em termos simples: uma empresa estrangeira fornecia o projeto e as especificações; a fábrica taiwanesa fabricava o produto, que era vendido com a marca estrangeira.
Tênis da Nike, roupas da Gap e computadores da Dell — na década de 1980, grande parte dos produtos dessas marcas norte-americanas era “Made in Taiwan”.
A lenda dos empresários taiwaneses que conquistaram o mundo com uma única mala
O sucesso das pequenas e médias empresas taiwanesas dependia da “determinação de ir até o limite” de seus proprietários.
A imagem mais clássica era a de “conquistar o mundo com uma única mala”: o empresário levava amostras para feiras comerciais em vários países e fechava os pedidos no próprio local. Não falar a língua não era problema: bastava digitar os números em uma calculadora. As diferenças culturais também não importavam: o essencial era oferecer um preço baixo.
Esse modelo empresarial tinha algumas características:
- Empresas familiares: proprietário, esposa, irmãos e irmãs administravam juntos o negócio
- Produção flexível: capacidade de aceitar pedidos pequenos e variados
- Controle de custos: redução de todas as despesas consideradas desnecessárias
- Velocidade acima de tudo: resposta rápida às necessidades dos clientes
A história do Pou Chen Group é emblemática. Em 1969, seu fundador, Tsai Chi-jui, abriu a empresa com NT$ 200 mil, especializando-se na fabricação de calçados esportivos sob contrato. Ele próprio viajou aos Estados Unidos, visitou sapataria por sapataria e finalmente conquistou um contrato de fabricação para a Nike.
Quarenta anos depois, o Pou Chen havia se tornado o maior fabricante terceirizado de calçados esportivos do mundo, produzindo 300 milhões de pares por ano. De cada três pares de tênis Nike, quase um era fabricado pelo grupo.
O custo humano por trás do milagre
O milagre econômico de Taiwan produziu números extraordinários de crescimento, mas também impôs um enorme custo humano.
A vida das operárias nas zonas de processamento para exportação
Na década de 1970, jornalistas estrangeiros chamavam a Zona de Processamento para Exportação de Kaohsiung de “sweatshop do Oriente”.
Condições de trabalho:
- Jornadas de dez a 12 horas por dia, com um dia de descanso por semana
- Salário mensal de NT$ 2 mil a NT$ 3 mil — cerca de US$ 60 a US$ 90
- Dormitórios com oito pessoas por quarto e toque de recolher às 23h
- Proibição de namorar e de se casar
Problemas de saúde:
- Graves problemas na coluna cervical e nos olhos devido às longas horas de trabalho com a cabeça inclinada
- Alergias cutâneas e doenças respiratórias frequentes devido ao contato com solventes químicos
- Elevada pressão psicológica, com taxas altas de depressão e suicídio
Essas operárias, porém, não tinham alternativa. Para uma jovem do campo, entrar em uma zona de processamento para exportação já era a melhor saída disponível. Em sua cidade natal, ela só poderia trabalhar na agricultura ou fazer produção doméstica por encomenda, ganhando ainda menos e com perspectivas ainda mais sombrias.
💡 Você sabia?
Na década de 1970, havia uma canção popular chamada “A terra natal ao entardecer”, cuja letra falava de pessoas que, para sobreviver, tornavam-se viajantes temporários longe de casa. Ela descrevia os jovens que haviam deixado suas cidades natais para trabalhar nas fábricas. A música tornou-se extremamente popular porque expressava os sentimentos de toda uma geração de taiwaneses.
Para além das fábricas: educação, urbanização e a transformação da posição social das mulheres
O sangue e o suor das operárias representam o lado mais pesado desse milagre. Contudo, sem que essa mesma geração o planejasse, ela também impulsionou uma transformação da estrutura social de Taiwan.
Em 1968, o governo ampliou a educação obrigatória de seis para nove anos5, e o número de instituições de ensino superior aumentou substancialmente. Para uma operária de fábrica, isso significava que seus filhos não teriam de seguir seus passos e começar a trabalhar logo depois da escola primária. O sistema de educação técnica e profissional foi sendo aperfeiçoado, enquanto estudar no exterior se tornou uma opção comum para famílias de classe média. A classe tradicional dos proprietários de terras perdeu força com a reforma agrária, ao passo que empresários, profissionais e técnicos ganharam posição social. Foi nesse processo que se formou uma nova classe média.
Ao mesmo tempo, a população rural migrou em massa para áreas metropolitanas como Taipé e Kaohsiung. Novas cidades surgiram ao redor dos distritos industriais, e a família nuclear gradualmente substituiu a família extensa como modelo predominante. Os empregos estáveis oferecidos pelas zonas de processamento para exportação e pelas indústrias eletrônica e têxtil também permitiram, pela primeira vez, que um grande número de mulheres tivesse renda própria. A independência econômica trouxe não apenas um salário, mas também o acúmulo de competências profissionais. Ao longo desse processo, começou a perder força a noção tradicional de que “a mulher só pode cuidar da casa”, e a participação política feminina aumentou claramente após a década de 1980.
As histórias de transformação muitas vezes se escondem justamente nessas brechas: “a fábrica explorava, mas a geração seguinte já não precisaria entrar nela”.
O preço da poluição ambiental
A poluição ambiental foi outro custo do desenvolvimento econômico.
Nas décadas de 1970 e 1980, Taiwan adotou padrões ambientais permissivos para acelerar a industrialização. O resultado foi:
- Poluição dos rios: o Rio do Amor, em Kaohsiung, ficou negro, enquanto o Rio Verde, em Taichung, tornou-se vermelho devido aos efluentes de tinturarias
- Poluição atmosférica: refinarias e indústrias petroquímicas de Kaohsiung lançavam grandes quantidades de gases poluentes, e a população local apresentava incidência elevada de câncer de pulmão
- Contaminação do solo: solventes orgânicos utilizados por fábricas de eletrônicos infiltraram-se nas águas subterrâneas, provocando contaminação de longo prazo
As consequências ainda são sentidas hoje. O Rio do Amor levou trinta anos para recuperar a transparência de suas águas, e a contaminação do solo em algumas zonas industriais ainda não pôde ser inteiramente removida.
O sacrifício dos direitos trabalhistas
Durante o milagre econômico, os direitos dos trabalhadores praticamente não existiam.
Sob a lei marcial, os trabalhadores não podiam organizar sindicatos independentes, fazer greve nem negociar coletivamente. Os empregadores podiam impor horas extras, transferir funcionários ou demiti-los arbitrariamente.
O exemplo mais extremo foi a explosão da fábrica da Asia Chemical, em 1973. Para acelerar a produção, a empresa obrigou os trabalhadores a operar continuamente durante 72 horas em um ambiente de alta temperatura e alta pressão. A explosão resultante matou cinco pessoas e feriu mais de vinte. O episódio, porém, não recebeu qualquer cobertura da imprensa, pois a lei marcial proibia notícias negativas que “prejudicassem o ambiente de investimento”.
Da imitação à inovação: a ascensão do setor de tecnologia
No fim da década de 1980, a economia taiwanesa começou a enfrentar pressões por uma transformação. Os salários subiam, o novo dólar taiwanês se valorizava e as vantagens competitivas do modelo tradicional de produção sob contrato estavam desaparecendo. Taiwan precisava encontrar um novo caminho de desenvolvimento.
Parque Científico de Hsinchu: a visão de futuro do governo
Em 1980, foi criado o Parque Industrial Científico de Hsinchu. Tratava-se de uma tentativa governamental de reproduzir o Vale do Silício norte-americano e desenvolver indústrias de alta tecnologia6.
Inicialmente, apenas vinte empresas se instalaram no parque, em sua maioria centros de pesquisa e desenvolvimento de multinacionais ou pequenas empresas taiwanesas. Muitos o consideravam um “poço sem fundo para o dinheiro público”, devido ao enorme investimento e ao retorno lento.
As autoridades econômicas K.T. Li e Sun Yun-suan, contudo, tinham outra visão. Elas enxergavam o futuro: a era da informação estava prestes a chegar, e Taiwan precisava se preparar com antecedência.
O avanço decisivo veio de um programa de retorno de especialistas radicados no exterior. O governo ofereceu condições vantajosas para atrair engenheiros taiwaneses que trabalhavam nos Estados Unidos e incentivá-los a voltar ao país para abrir empresas.
O nascimento da TSMC: a decisão que mudou o mundo
Em 1987, Morris Chang, presidente do Instituto de Pesquisa de Tecnologia Industrial, tomou uma decisão que mudaria a história: criar a TSMC, dedicada exclusivamente à fabricação de chips projetados por outras empresas7.
Na época, não existia em nenhum lugar do mundo uma empresa de “fundição pura de semicondutores”. A Intel projetava e fabricava seus próprios chips; a IBM também projetava e fabricava os seus. A ideia de Morris Chang foi considerada insana: “Quem precisaria de uma empresa que apenas fabrica e não projeta?”
Chang, porém, percebeu uma tendência: no futuro, haveria cada vez mais empresas interessadas em se concentrar no projeto de chips, sem gastar dezenas de bilhões de dólares na construção de fábricas. A função da TSMC seria tornar-se a “fábrica de chips” dessas empresas.
Trinta e sete anos depois, a TSMC tornou-se a empresa de semicondutores mais valiosa do mundo, com valor de mercado superior a US$ 800 bilhões. Ela demonstrou que Taiwan podia passar da “produção sob contrato” à “liderança tecnológica”.

Complexo fabril da TSMC em Hsinchu, de onde o modelo de fundição pura se irradiou para toda a cadeia mundial de fornecimento de chips. Foto: Arusanov, 20 de julho de 2009, domínio público. Wikimedia Commons.
O efeito de aglomeração do setor tecnológico
O sucesso da TSMC impulsionou o desenvolvimento de toda a cadeia industrial:
- Projeto de circuitos integrados: empresas como MediaTek, VIA Technologies e Realtek projetam chips
- Encapsulamento e testes: ASE e Siliconware realizam as etapas finais do processamento dos chips
- Equipamentos e materiais: empresas como Hermes-Epitek e Scientech fornecem equipamentos de fabricação
O Parque Científico de Hsinchu tornou-se o aglomerado mais completo da indústria mundial de semicondutores. Do projeto à fabricação e ao encapsulamento dos chips, todas as etapas estão concentradas em um raio de cinquenta quilômetros, formando um ecossistema industrial impossível de reproduzir.
A verdade sobre o milagre dos números
Os números do milagre econômico de Taiwan são, de fato, impressionantes:
Crescimento econômico
- Do início da década de 1950 ao início da década de 1990, a taxa média anual de crescimento econômico permaneceu por longos períodos entre 8% e 10%8
- Crescimento econômico médio mundial no mesmo período: 3,8%
Crescimento da renda média por pessoa
- Início da década de 1950: cerca de US$ 1501
- Início da década de 1990: mais de US$ 10 mil8
- Crescimento superior a sessenta vezes em quarenta anos
Expansão das exportações
- Exportações em 1952: US$ 116 milhões
- Exportações em 1990: US$ 67,4 bilhões
- Multiplicação: 580 vezes
Transformação da estrutura produtiva
- Participação da agricultura no PIB em 1952: 32%
- Participação da agricultura no PIB em 1990: 4%
- A indústria passou de 18% para 46%, enquanto os serviços permaneceram em 50%
A história por trás desses números é a seguinte: em quarenta anos, 20 milhões de taiwaneses transformaram com sucesso uma sociedade agrícola em uma sociedade industrial.
Os Quatro Tigres Asiáticos: o caminho singular de Taiwan
Taiwan não foi o único lugar a produzir um milagre nesse período. Coreia do Sul, Hong Kong e Singapura seguiram o mesmo caminho de industrialização orientada para as exportações, acompanhado de políticas industriais lideradas pelo governo, forte investimento em educação e duas oportunidades internacionais comuns: a abertura do mercado dos Estados Unidos durante a Guerra Fria e a difusão da tecnologia japonesa9.
O percurso de Taiwan, contudo, apresentou algumas diferenças claras:
- Pequenas e médias empresas versus chaebols: a Coreia do Sul concentrou recursos para apoiar grandes conglomerados como Samsung e Hyundai; Taiwan contou com 550 mil pequenas e médias empresas, cada uma tentando “conquistar o mundo com uma única mala”. Ambas alcançaram crescimento acelerado, mas produziram padrões inteiramente diferentes de distribuição da riqueza
- Profundidade da reforma agrária: em comparação com os outros três Tigres Asiáticos, Taiwan realizou a reforma agrária mais abrangente, permitindo a transferência fluida de capital e mão de obra do campo para o setor industrial. Esse foi o ponto de partida da “virada” mencionada anteriormente
- Diferenças na trajetória política: Taiwan passou do autoritarismo à democracia por um caminho completamente diferente dos percorridos por Singapura e Hong Kong. A classe média criada pelo milagre econômico viria a ser uma das forças propulsoras da democratização na década de 1990
A mesma fórmula — “orientação para as exportações, liderança governamental e prioridade à educação” — produziu quatro sociedades distintas. É também por isso que a história de Taiwan merece ser lembrada separadamente: não apenas por “como aconteceu o milagre”, mas por “quem foi alcançado por ele e que tipo de sociedade ele deixou”.
O preço do milagre e as reflexões que ele suscita
O milagre econômico de Taiwan foi um sucesso, mas teve seu preço.
Fatores de sucesso
- Políticas governamentais voltadas para o futuro: reforma agrária, zonas de processamento para exportação, Dez Grandes Projetos de Infraestrutura e parques científicos
- Dedicação da população: longas jornadas de trabalho, alta taxa de poupança e investimento em educação
- Oportunidades oferecidas pelo contexto internacional: assistência dos Estados Unidos durante a Guerra Fria e demanda por produção terceirizada no início da globalização
- Estabilidade social: embora o regime autoritário restringisse as liberdades, manteve a estabilidade política
O preço pago
- Poluição ambiental: os danos aos rios, ao ar e ao solo ainda estão sendo reparados
- Direitos trabalhistas: longas jornadas, baixos salários e falta de proteção
- Desigualdade social: a riqueza concentrou-se nas mãos dos empresários, enquanto os trabalhadores receberam uma parcela menor; a própria reforma agrária também impôs perdas desproporcionais aos pequenos coproprietários
- Desenraizamento cultural: a cultura local foi negligenciada em nome da integração ao mercado internacional
Lições para o presente
A experiência do milagre econômico de Taiwan continua oferecendo lições:
- O investimento em educação é fundamental: os recursos humanos são o ativo mais importante de Taiwan
- A indústria de transformação não pode ser negligenciada: o setor de serviços não consegue substituir por completo os empregos industriais
- Inovar é mais importante do que imitar: é preciso passar da produção sob contrato às marcas próprias e à inovação tecnológica
- O desenvolvimento sustentável exige equilíbrio: o crescimento econômico não pode sacrificar o meio ambiente nem a justiça social
✦ “O aspecto mais precioso do milagre econômico de Taiwan não está nos números da renda, mas na demonstração de uma verdade: quando há disposição para trabalhar, um lugar pequeno também pode realizar grandes feitos. O próximo milagre, porém, deverá ser mais sustentável, mais justo e mais humano.”
Do milagre à transformação: os desafios do futuro
Em 2024, Taiwan já não precisava de um “milagre econômico”. Com um PIB per capita superior a US$ 30 mil, era inequivocamente um país desenvolvido. Novos desafios, contudo, começavam a surgir:
Pressão pela transformação industrial
Transferência da indústria de transformação para o exterior, baixa produtividade no setor de serviços e estagnação do crescimento salarial: a economia taiwanesa precisa de novos motores de crescimento. Embora poderosa, a indústria de semicondutores não consegue sustentar toda a economia. Taiwan precisa desenvolver mais empresas “campeãs ocultas”.
O desafio do envelhecimento populacional
A baixa natalidade e o envelhecimento da população fazem Taiwan enfrentar escassez de mão de obra. O antigo modelo de desenvolvimento baseado em grandes contingentes de trabalhadores precisa mudar. Automação, inteligência artificial e atração de profissionais internacionais são questões que terão de ser enfrentadas.
Exigências do desenvolvimento sustentável
A mudança climática obriga Taiwan a repensar seu modelo de desenvolvimento. Como transformar as indústrias de alto consumo energético? Como desenvolver a energia verde? Como construir uma economia circular? Essas são as questões econômicas da nova era.
A história do milagre econômico de Taiwan ainda não terminou. Da reforma agrária à TSMC foi apenas o primeiro capítulo, a passagem da pobreza ao bem-estar. Os próximos capítulos precisarão narrar a passagem do bem-estar à felicidade, do crescimento quantitativo ao avanço qualitativo e do milagre econômico ao progresso social.
Os autores dessa história continuam sendo todos os taiwaneses.
Leituras adicionais:
- Fatura: o papel que transformou toda a população em fiscal tributário em 1951 — a fatura uniforme foi uma infraestrutura fiscal decisiva no mesmo período do milagre econômico; em seu primeiro ano, iniciado em 1951, fez a arrecadação do imposto sobre vendas aumentar 75%
- Dez Grandes Projetos de Infraestrutura: uma aposta de NT$ 200 bilhões sobre US$ 1 bilhão em reservas cambiais — o contexto completo, as controvérsias e a narrativa política daquela grande aposta da década de 1970
- Boas políticas que atravessaram os partidos — a afirmação amplamente difundida de que a reforma agrária “impulsionou o milagre econômico de Taiwan” não resiste, na verdade, a um exame rigoroso
Fontes das imagens
Este artigo utiliza quatro imagens de acervos históricos oficiais ou de domínio público, todas armazenadas em cache em public/article-images/economy/ para evitar a vinculação direta aos servidores de origem:
- O primeiro-ministro Yen Chia-kan preside a inauguração da Zona de Processamento para Exportação de Kaohsiung — Exposição de Documentos Históricos Preciosos do Yuan Executivo, fotografia da cerimônia de 3 de dezembro de 1966
- O primeiro-ministro Chen Cheng recebe uma faixa de agradecimento pela política “a terra para quem a cultiva” — Exposição de Documentos Históricos Preciosos do Yuan Executivo, fotografia de cerimônia realizada por volta de 1953
- Retrato de Chiang Ching-kuo — Exposição de Documentos Históricos Preciosos do Yuan Executivo, retrato oficial
- Complexo fabril da TSMC em Hsinchu — Foto de Arusanov, 20 de julho de 2009, domínio público, Wikimedia Commons
Referências
- Taiwan na década de 1950 — Wikipédia — O verbete cita estatísticas do início do período pós-guerra e indica que, no começo da década de 1950, o produto nacional bruto per capita de Taiwan era de apenas cerca de US$ 150. Este artigo adota essa faixa para a renda no ponto de partida, em vez de um número exato não confirmado por uma fonte independente.↩
- Land Reform Museum Foundation — guia temático — Registra todo o contexto histórico e o desenho das três etapas da reforma agrária realizada entre 1949 e 1953: redução dos arrendamentos para 37,5%, venda de terras públicas e política “a terra para quem a cultiva”.↩
- Administração das Zonas de Processamento para Exportação: histórico de criação — Página oficial que registra a criação, em 1966, da Zona de Processamento para Exportação de Kaohsiung, a primeira do mundo.↩
- International Center for Land Policy Studies and Training — Wikipédia — Registra que a instituição teve como antecessor o Land Reform Training Institute, fundado em 1968 pelo governo da República da China (Taiwan) e pelo Lincoln Institute of Land Policy, dos Estados Unidos, e que adotou seu nome atual em 2000.↩
- Taiwan na década de 1950 — Wikipédia — O verbete registra a implementação, em 1968, da educação obrigatória de nove anos como uma das políticas educacionais de maior impacto em Taiwan no período pós-guerra.↩
- Administração do Parque Científico de Hsinchu: trajetória de desenvolvimento — Página oficial que registra a criação do Parque Industrial Científico de Hsinchu em 1980 e a quantidade de empresas instaladas em sua fase inicial.↩
- Public Television Service: o café da manhã de Sun Yun-suan com sete pessoas que deu origem ao milagre econômico dos chips semicondutores da TSMC — Descreve o papel dos tecnocratas antes e depois da criação da TSMC, em 1987, e o surgimento do modelo de fundição pura de semicondutores.↩
- Diretoria-Geral de Orçamento, Contabilidade e Estatística do Yuan Executivo: banco de dados de renda nacional e crescimento econômico — Banco de dados oficial com estatísticas históricas de renda nacional e crescimento econômico, no qual os leitores podem consultar os números exatos de cada ano. Este artigo apresenta as taxas de crescimento e a renda ao fim do período como faixas verificáveis nessa base oficial.↩
- Banco Mundial, The East Asian Miracle — Estudo comparativo clássico do Banco Mundial sobre os modelos de desenvolvimento dos Quatro Tigres Asiáticos, abrangendo suas características comuns: industrialização orientada para as exportações, políticas industriais governamentais e investimento em educação.↩